domingo, 23 de maio de 2010

BRECHT E O MARXISMO


Sergiano Silva

Há dois caminhos para aquele que não acredita nas utopias: o ceticismo ou o dogmatismo
Álvares de Azevedo

UMA VIDA DE GALILEU

Os dogmas são talhados mediante aquilo que contrapõem. Os hereges em parte acabam forjando novas fórmulas doutrinárias, especializando a repressão as doutrinas das quais negam. O inimigo nomeado garante um sentido, um por que, como o religioso luta contra seus pecados e o Mal, e como as ditaduras, que não são simplesmente voluntárias, prestam um serviço de defesa contra, de preferência um vizinho, melhor ainda se invisível. Pois o inimigo, de qualquer ponto de vista, à esquerda ou à direita, pode ser encontrado na cabeceira de sua cama, como nos romances de Franz Kafka, sempre perto de sua intimidade. Perto porque mesmo o contraditor conhece o sistema, todos os aparelhos, e tenta usá-los a contrapelo, acreditando que está usando seus espaços e suas brechas para derrotá-lo por dentro.
Bertolt Brecht (1898 – 1956) parecia um herege. Esteve sempre perto dos inimigos, da República de Weimar aos burocratas do Estado comunista da Alemanha Oriental (RDA). Herege terrible numa Alemanha onde a social-democracia se afundavam em meio aos conflitos sociais entre comunistas e nazistas, numa economia onde oito bilhões de marcos não davam pra comprar um pão, em que burgueses bem engomados, com o paletó estufado pela enorme pança freqüentavam as óperas no Staatstheater (Teatro Estadual da Prússia), onde fingiam estar apreciando as mais belas obras expressionistas de Leopold Jessner produzidas pela tradicional nação germânica e que, ao fim do tedioso embora obrigatório programa social, abarrotavam os cabarés até às cinco da manhã, enquanto os trabalhadores entravam no inferno do dia-a-dia das fábricas onde ainda havia emprego – imagens de uma Alemanha que o desenhista George Grosz retratou.
Brecht também era o herege “oficial” da Alemanha comunista pós-Segunda Guerra. Agora ele estava mais perto do que nunca dos inimigos, numa relação de mão dupla, usava-os e era por eles aproveitado, apenas pelo que prestava, pouco, muito pouco. Ofereceram-lhe tudo o que um dramaturgen sonhava ter, um teatro, uma companhia ambulante, atores, cenógrafos, secretários e um séquito de admiradores do seu teatro. E ele mesmo reconhecia: “Na cidade A fui convidado a jantar, mas na cidade B fui convidado a entrar na cozinha.” [1] Ele está na cozinha de casa, como de preferência. Contudo, estar na cozinha, ou seja, para ele deter os aparelhos de produção artística, uma Companhia, não significou a independência artística.
Brecht assemelha-se a um dos seus personagens, Galileu Galilei, na peça A vida de Galileu (1938-39), onde o cientista veneziano, que desfruta as liberdades individuais dos intelectuais da cidade, vê-se na obrigação, não política, mas econômica (os venezianos não lhe pagam bem) de ir para Florença, uma cidade pouco acolhedora para homens com idéias progressistas. Ele troca um ambiente desprovido de perseguições para viver sob os constantes olhares conservadores da Igreja, que o prende por razão de sua teoria heliocêntrica. Como Galilei em Florença, Brecht terá condições de, na Alemanha comunista, ter seus próprios meios para desenvolver seu teatro e suas pesquisas, será patrocinado pelo governo, mas terá de enfrentar todas as disposições do partido para influir nas suas obras e mesmo em seu comportamento como um intelectual que, para os burocratas, interessados na mera propaganda político-cultural estampada no nome de Brecht, “só o mundo comunista poderia produzir.”
Vê-se que Galileu trocou a liberdade pela vigilância menos por motivos profissionais que razões econômicas, tal a sua falta de escrúpulos. Brecht queria mostrar Galileu (e a si mesmo) como um homem que não se prende a idealizações moralistas de inspiração ascética ou cristã, infectada pela virtude do sofrimento denunciada por Friedrich Nietzsche. É bem menos famosa uma frase sua: “Antes comer, depois a moral.” Brecht odiava a figura dos mártires, do herói disposto a dar sua pele para uma causa sem sentido, do soldado que se dispõe para ir à guerra lutar em nome de uma nação ou do cientista que se deixa morrer em nome de suas convicções. Galileu acaba se retratando diante a Inquisição para que pudesse continuar suas pesquisas - vivo. Homens só se tornaram heróis depois de mortos, assim sendo, é preferível tornarmos anti-heróis:

                          ANDREA – Pobre do país que não tem heróis.

                          GALILEU – Não. Pobre do país que precisa de heróis![2]

O Brecht herege, mesmo o “oficial” do governo, não se importa com o fato da censura predominar no país e em suas obras, para ele a melhor forma de se manter fora desse “mal necessário”, segundo ele mesmo achava do Estado Alemão Oriental, era sobrevivendo para continuar produzindo. E mesmo assim, Brecht conseguiu fazer obras que estavam longe da cartilha do partido, gerando diversas polêmicas com os burocratas da arte, polêmicas muitas vezes abafadas pelos mesmos, já que o dramaturgo, apesar de tudo, também era um “herege necessário”. Suas ações ambíguas com relação ao partido podem ser resumidas nos seus versos: “Quem sois, afinal?/ chafurdai na sujeira/ abraçai o carniceiro, mas/ transformai o mundo – que é urgente!”[3]

2 -O JULGAMENTO DE LUCULUS

Este breve ensaio tem como objetivo analisar o marxismo de Brecht aplicado em seu pensamento. No entanto encontramos alguns problemas de metodologia. Primeiro porque poderíamos incorrer no erro execrável de julgar o que é ou o que não é marxista na sua produção teatral e teórica, pondo-nos sob certa autoridade intelectual e dogmática pela qual o próprio dramaturgo sofrera há cinqüenta anos sob os auspícios do Partido Comunista. Neste caso, dirigimo-nos em última instância apenas ao que o autor alemão sorvia da teoria de Karl Marx e Friedrich Engels, o que ele entendia ser o materialismo dialético, já que, anos antes de morrer, afirmara ser o seu teatro de base dialética e não épica, o que será discutido mais adiante.
A segunda questão diz respeito às fontes escassas de material do autor. Apesar de Brecht ter sido bem divulgado no Brasil principalmente na década de 1960, onde trouxe um impacto enorme no teatro e na teoria artística em geral, e de ele ser até hoje com certeza o dramaturgo mais reconhecido e de certo modo popular nas escolas teatrais, a sua extensa produção literária e teórica ainda não foi aqui totalmente publicada. As últimas edições do seu teatro datam ainda da década de 1960, quando a Civilização Brasileira publicou o seu teatro completo e o que se pode dizer da mais recente é de 1970 da Paz e Terra.[4] No entanto, a maior parte de suas poesias, os seus tratados teóricos, seus ensaios, artigos e prosas continuam inéditos no país, deixando o público brasileiro ainda com pouco conhecimento original do autor, pois a maior parte do material sobre Brecht existente são obras de “segunda mão”, ou seja, de análise da crítica teatral ou marxista sobre. Deste modo, a obra que mais norteia as palavras que se seguem é o livro Brecht: dos males, o menor, de Martin Esslin, uma análise psicológica e sociológica do dramaturgo e de seu pensamento.
Podemos dizer então que não vamos tratar as obras de Brecht na medida de uma fôrma ou de uma sistemática pressupostamente marxista, tentaremos sim discutir a partir de seu pensamento o “seu” marxismo, sua teoria e suas opiniões.
Esta tarefa é particularmente delicada em se tratando de um artista tão polêmico, iconoclasta e mesmo inclassificável. Não dá para dizer que Brecht foi isto ou aquilo. Se ele foi em certos momentos stalinista, como acreditou Paulo Francis[5], ou se foi anarquista, hipócrita, aproveitador, burocrata, mercenário, formalista ou idealista, é impossível de afirmar com certeza absoluta. A única certeza é que ele foi uma metamorfose ambulante tal como Galy Gay, personagem da peça Um homem é um homem[6], mostrando que “a personalidade humana pode ser desmontada e montada como um motor de automóvel.” [7] Brecht seguia um materialismo particular, uma pessoa que sabia aproveitar as circunstâncias que se apresentavam sabendo usá-la para o seu bem, sem nenhum moralismo ou hipocrisia, era servil quando necessário, era bajulador e estúpido na medida certa, era cínico se estava em jogo o seu futuro e sua própria vida.
A partir de 1930 Brecht passa a escrever pequenas anedotas sobre uma personagem identificada como o seu alter ego, o Sr. Keuner. Nestas pequenas histórias podemos encontrar toda a filosofia do dramaturgo. Se há alguma que pode resumir sua personalidade durante o regime comunista na Alemanha está em Medidas contra a violência. Nela Sr. Keuner comporta-se de modo covarde e é questionado por amigos; para se defender ele conta uma história de um homem que teve a casa invadida por uma autoridade para provar que o homem deve sobreviver mesmo sob a violência. O agente da autoridade pergunta: “‘está disposto a servir-me? ’ sem dizer nenhuma palavra, o homem serviu o agente da violência durante sete anos, até que o intruso ficou tão gordo que morreu. O homem embrulhou o corpo num cobertor velho e jogou-o para fora de casa. Depois lavou a cama, caiou as paredes, deu um suspiro de alívio e respondeu: ‘não’.” [8]
Pôr Brecht à prova de uma medida, vesti-lo em uma sistemática. São tarefas inúteis, considerando não somente sua personalidade como também suas obras. É neste sentido que não podemos olhá-lo à luz de uma suposta estética marxista. Georg Lukács tentou esboçar o que poderia ser a sistemática de uma arte e de uma crítica nestas bases em seu livro Introdução a uma estética marxista, mas não seguimos este norte, pois sabemos que uma avaliação estética acordado em uma linha de pensamento filosófica ou política rígida e formatada pode incorrer naquele velho erro (embora bem contemporâneo) de cair num dogmatismo e sectarismo. Analisar Brecht sob uma estética propriamente marxista, portanto, seria cometer as mesmas interpretações que o partido usava para classificar as artes em “realista socialista” ou não.
Brecht corria atrás de uma ciência teatral, mas de nenhuma forma organizou sistemas de pensamento brutos que poderiam definir uma teoria teatral absolutamente perfeita. Ele soube pôr a idéia de ciência como poucos, suas idéias estariam sempre em movimento, expressamente dialético e materialista. Daí certa estranheza com o marxismo dominantemente fechado e tacanho da época, que se dizia uma ciência acabada, receita para traduzir o mundo a partir de conceitos-chave. Brecht caiu sim em certos momentos num simplismo economicista (não que simplicidade queira corresponder a incoerência e inconsistência ininteligíveis, pelo contrário!) mas ele passa longe do marxismo predominante, fato que muitos intelectuais puderam comprovar somente depois de sua morte, como Raymond Willians[9], Roland Barthes, Hannah Arendt,Theodor Adorno e muitos outros.

3 - CONSTRUINDO O ELEFANTE

A forma – forma aqui não significa fôrma! - do teatro brechtiano tem sua função especial na aplicação do chamado teatro épico, que analisaremos mais adiante. Por ora vamos discutir em que constitui esse tipo de teatro como um aparelho diferencial em relação a outros tipos. Contudo, é difícil resumir o pensamento e a teoria de Brecht em tão poucos parágrafos. Por isso em parte caio naquilo que John Willet critica a respeito de comentadores que preferem analisar mais a teoria (na verdade não acabada, no sentido de uma sistemática pronta) do que as suas obras em geral[10]. Assim, como foi dito anteriormente, não se pode afirmar com precisão o que é o teatro épico, como se este fosse uma espécie de estojo pré-fabricado. O motivo disto está nas especificidades do trabalho de Brecht que seguem práticas anti-dogmáticas, pois, como cientista que pretendia ser (“Eu sou um Einstein da nova forma teatral” [11], afirmava sem comedimento) não encontrava uma teoria pura. Brecht soube levar o empiricismo até ao extremo, o seu teatro era reformulado quase a cada ensaio, a cada experiência fazia novas anotações, a todo o momento, sendo as cenas e técnicas cientificamente testadas - uma Sociedade das ciências teatrais[12] era o que ele queria fundar.

Aqui encontramos o método materialista poucas vezes posto à prova num momento do século XX onde o stalinismo e o “realismo socialista” impunham conceitos arranjados para a arte. Ele não acreditava na perfectibilidade de uma originalidade vinda de algo metafísico, característicos de alguns poetas e artistas, o seu trabalho era feito e desfeito (muitas vezes) coletivamente mediante erros, que eram sempre corrigidos e recorrigidos, apresentando assim uma mutabilidade incrível: “Ele reescreveu seu trabalho inúmeras vezes, em vinte, trinta versões diversas que possam corresponder às necessidades dos mais insignificantes teatros de província. E não dá a mínima atenção ao fato de uma obra estar terminada, a última versão sempre acaba sendo a penúltima. (...) Se alguma incoerência interior chama a sua atenção, não hesita em atirar fora o trabalho de um ano inteiro (...)” [13] O processo de produção é sempre superável, no triplo sentido da palavra aufhebung (negação-conservação-superação).
Brecht confere esta dialética a uma atitude básica do ser humano, o gestus. Walter Benjamin é preciso: o teatro épico de Brecht é gestual.[14] O corpo é uma expressão social, a partir dele nos comunicamos de forma inaudita, às vezes sem percebermos.Para ele, Gestus é um comportamento sociológico, capaz de denunciar a exploração e a expiação dos homens; basta vermos como a mecanização das máquinas transformavam os trabalhadores em meros repetidores gestuais, autômatos baudelaireanos, robotizados pela divisão serial do trabalho, ironizados uma vez por Charles Chaplin. É neste sentido que Brecht dava importância aos comportamentos sociais, expressões faciais e reflexos corporais, vendo-os como um ponto por onde deveríamos tratar a revolução social – atitude e preocupação culturais incomuns aos marxistas.
Para isso Brecht recomendava a seus atores a expressão gestual capaz de transformação social, de libertação por meio da comunicação não literária – ele acreditava que o teatro tinha uma fundação mais técnica que literária. O ator expressa atitudes nos seus movimentos dentro do palco, ele não deve exibir sentimentos. Assim dispensa-se qualquer psicologismo da personagem representada, ela está no palco em função de algo, em ação, e é nesse simples funcionalismo do ator a “jogar gestos” que o público deveria dialogar. Um exemplo característica que ele dava foi resumido no poema Sobre o teatro de todos os dias em que um homem, ao testemunhar um acidente de trânsito, narra como este ocorreu:

Olhem agora: está fazendo o papel do atropelado,
(pelo o que se pode deduzir é um ancião)
Este homem mostra tão-somente o essencial para que se
Compreenda como foi o desastre.
- e isto basta para apresentar os dois diante de vocês[15]

E Brecht conta como o homem demonstrava o ancião que andava devagar, imitando-o. É assim que o ator usa do seu gesto para compor a cena e mostrar sempre ao público que ele está narrando um acontecimento, nunca vivendo-o, pois o gesto deveria ser o instrumento mímico do ator para ele se manter afastado, distante, dos que o assistem e assim dispensar qualquer resquício de ilusionismo que os outros teatros tem. Os seus gestos são, neste sentido, citações de uma ação, o intérprete fala de, e não por si. (Por extensão eles também narram, o ator narra com corpo.) A objetividade do ator é o que constrói o personagem. Mas por que esta objetividade? Porque para um teatro que se pretendia científico, o cientista (ator) não deveria estar próximo de seu objeto (personagem).
O marxismo (na verdade materialismo) de Brecht aí se mostra nitidamente. O questionamento que se faz é se Brecht nega a subjetividade por meio desta técnica, se o ator seria uma mera marionete de uma força exterior tal como o marxismo pregava desde o século XIX. Será que assim Brecht seria, tal como outros de sua época, um marxista vulgar, mecanicista, economicista? Ora, a questão da objetividade perpassa toda a teoria brechtiana, não por acaso. Há vários motivos, um deles era artístico; devemos entender o seu teatro também como uma contraversão ao teatro dominante da época. O expressionismo, com seu anti-realismo, dominava o cenário, baseado na “explosão incontida da subjetividade”. Ele era “o centro dramático do novo teatro, que depois de uma primeira fase metafísica conhecerá outras tendências internas (...)” [16] O naturalismo também pegava o público com a ilusão de uma pretensa realidade exposta no palco, em que o caráter emocional entre a platéia e a peça favorecia este fim. O Brecht científico não aceitava nunca esse tipo de emocionalidade - emocionalidade derivada da ignorância - que seduzia o espectador dando-lhe o que comer com entretenimento. “Brecht considerava a arte teatral como mais do que um mero artigo de consumo, e abominava aquilo que chamava de ‘teatro culinário’, o teatro que fornece apenas alimentos mentais, a serem engolidos e depois esquecidos.” [17] A emoção, portanto, era o perigo que deveria ser afastado porque prendia o espectador numa falsa realidade na medida em que este se identificava com o enredo e o ator. O dramaturgo comenta sobre o ilusionismo do teatro convencional: “E vejamos o efeito que exerce nos espectadores... Certo, seus olhos estão abertos, mas eles contemplam mais do que vêem, assim como escutam mais do que ouvem (...). Este estado de alheamento, em que eles parecem estar entregues a vagas mas profundas sensações, mergulha tanto mais quanto melhor for o trabalho dos atores.[18](grifo nosso).
Neste caso, essa atitude é mais científica que propriamente marxista. Para despertar o comportamento crítico no espectador (na etimologia da palavra, aquele que espera, mostra a sua passividade, imobilidade) ele tem que se afastar do seu ambiente, seja dentro de um teatro, seja no mundo, e então seu alheamento, ou seja, a alienação estaria encerrada.
Já que o ator brechtiano cita, isso quer dizer que ele não atua, no sentido comum da palavra, o de vestir um personagem com um guarda-roupa de sentimentos. Este tipo de atuação é na verdade uma narração, o que torna a função de interpretar um pouco confusa. O ator deve ser ele mesmo no palco, porque, no caso de ele se camuflar em outrem personagem, estaria então negando sua própria individualidade, mentindo a si próprio, e, pior ainda, estaria enganando o público. Ele, na verdade, deve atuar como se estivesse falando sempre na terceira pessoa, tal como o homem que viu o acidente, narrando a sua ação para ficar longe dela e não se identificar com os seus próprios atos. Na peça O preceptor[19], por exemplo, o ator que interpreta o Conde Wermunth diz a sua fala como se estivesse contando. Onde se lê: “CONDE: Vossa excelência já viu o novo professor de dança que chegou em Dresden? Trata-se de um Marchuse de Florença.” Ele, o ator, diz, no ensaio: “Então o Conde Wermunth entrou... e perguntou se Madame já tinha visto o novo professor de dança, que havia chegado de Dresden ...”[20] O distanciamento entre ator e personagem é crucial para o público entender que aquilo é só teatro e não a realidade.

Se Brecht queria negar a ilusão do teatro convencional, então a cenografia de suas peças tinha certa “autonomia” dentro do palco. Sem dúvida o grande cenógrafo que conseguiu acompanhar as idéias de Brecht foi Caspar Neher, seu amigo de infância. Com seus desenhos, ele pôde aplicar o distanciamento entre o palco e o publico, usando imagens que contrastavam com a narrativa para que não sobrasse qualquer resquício de realidade. Em algumas peças personagens eram mostrados ao lado de seus desenhos caricaturados para mostrar a discordância e distância entre os dois. É o caso da cena onde um glutão morre de tanto comer em Ascensão e queda da cidade de Mahagony[21], comentado por Benjamin: “Nada nos impede de sentar o glutão representado diante do glutão real, ou seja, de atribuir mais realidade ao personagem desenhado no fundo da cena, que ao personagem representado (...). Neste sentido, as projeções de Neher seriam idéias materialistas, idéia de ‘condições’ reais (...)” [22]
O desenho retira da peça toda a aura do ator como representante e da peça como realidade. Tornar estranho tudo o que parece familiar, é esta a tarefa da cenografia do teatro brechtiano. Se ao ir ao teatro o publico deveria estranhar o que está sendo mostrado no palco, ele estaria educado a ver o mundo também com certa estranheza, ele se afastaria do que é convencional, primeiro passo para uma atitude crítica diante da sociedade. Os ambientes naturalizados seriam desmascarados, a fábrica e a lógica dos patrões e dos salários, a casa e a ordem familiar nuclear burguesa, a guerra e a disputa por mercados, enfim, tendo atitudes céticas (“o ceticismo remove montanhas” [23]) e objetivas, ou seja, científicas, em relação ao mundo, transformaria um simples espectador de teatro num cientista revolucionário. Porque, segundo Brecht, as maiores descobertas da humanidade foram feitas por homens que “estranharam o que era familiar”, Newton e a maçã que caía, Galileu e o lustre que balançava.
E já que o palco é um laboratório social, todas as formas pedagógicas eram empregadas. Bastante influenciado por Erwin Piscator, dramaturgo marxista, o teatro brechtiano usava de todos os aparelhos e tecnologias disponíveis à época para fornecer informações para os espectadores, usava gráficos estatísticos, letreiros, fotografias, documentos, noticiários e trechos de filmes. Na peça A ópera dos três tostões, por exemplo, ele usa noticiários da queima de cafés no Brasil para ilustrar que a abundância, mesmo em época de crise, no capitalismo não quer dizer nada, se não estivar na lógica do mercado. Brecht foi extremamente influenciado por Piscator, inclusive deste que nasceu a expressão “teatro épico” – para ele, esse era o novo teatro tecnológico. Para ambos o palco deveria estar equipado pra “mostrar as forças materialistas que movem a ação” [24]
Um movimento artístico surgido na época também foi uma grande influência não só para Brecht como também para outros artistas - o Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade). As máquinas, as inovações técnicas, o cinema, a fotografia, os automóveis do começo do século XX empolgavam muitos artista que viam nestas tecnologias novas formas e meios para a expressão estética, tanto da pintura, do teatro, das artes plásticas e da literatura. A Nova Objetividade alemã contrapunha então a era das máquinas e das técnicas à tradição romântica alemã. Essas idéias influenciaram artistas de diversas ideologias, desde os futuristas italianos, que associavam o fascismo, à esquerda marxista, tendo deste lado expoentes como Brecht, Piscator, o desenhista George Grosz, o pintor Otto Dix, e outros[25].
O elogio da tecnologia (tão patente no construtivismo soviético como no futurismo fascista italiano) poderia ser encarado pelos críticos como mais uma aplicação tosca do marxismo de Brecht. Ele costuma pôr em choque tecnologia e natureza, ou seja, o homem e a relação/superação[26] com o seu meio. O exemplo mais contundente é O vôo de Lindbergh[27], onde o dramaturgo conta a história do primeiro vôo de avião que atravessou o oceano Atlântico, dos E.U.A até a Inglaterra. O piloto (que na obra é representado pela coletividade dos que fabricaram o avião) enfrenta as forças da natureza, o nevoeiro, a tempestade de neve, o cansaço do corpo; ao vencê-los eles cantam: “Mesmo nas cidades aperfeiçoadas/ ainda prevalece a desordem/ que nasce da ignorância e se parece com Deus/ mas as máquinas e os operários a combaterão. Também vocês/ participem/ da luta contra o primitivo.”[28]
Aqui Brecht se relaciona com a concepção marxista de que, na História, o homem, para sobreviver, trava um combate com a natureza, o que não significa uma onipotência daquele: “Aqui, como por toda parte, aliás, a identidade entre o homem e a natureza aparece também sob esta forma, ou seja, o comportamento limitado dos homens face à natureza condiciona seu comportamento limitado entre si, e este condiciona, por sua vez, as relações limitadas com a natureza, precisamente porque a natureza ainda quase não foi modificada pela história.” [29] Vemos aqui uma concepção dialética entre homem e natureza, da mesma forma que Brecht canta: “Lutemos contra a natureza/ até ficarmos naturais” [30] para compreender que não há estágio absoluto, tal como considerou Marx anteriormente. Brecht finaliza: “Ergue-se nossa/ simplicidade em aço/ mostrando o que é possível fazer/ sem nos deixar esquecer/ o que ainda não foi alcançado.” [31]
A questão crucial aqui, para Brecht, passa pelas técnicas e os aparelhos de produção artística. A era da técnica na produção artística trouxe discussões à flor da pele entre alguns intelectuais da década de 1930. Nestas discussões estava em jogo não apenas questões estéticas, variáveis de agora em diante devido ao impacto diferente causado ao apreciador da arte, mas também despertou contendas ideológicas entre artistas de diversas tendências, mesmo dentro da esquerda, mesmo dentro da direita. A apreciação da superioridade intelectual e espiritual classicista que os nazistas reinvidicavam para si era, por exemplo, impermeável às inovações técnicas da arte, contraditoriamente ao que os fascistas futuristas pensavam. Assim, mesmo dentro da direita, a nazista e a fascista, as perspectivas da arte eram diferentes, até mesmo gritantes. Na esquerda, a polêmica se dava entrementes à crítica do impressionismo, do vanguardismo e, principalmente, do “realismo socialista”, que faz surgir um elaborado debate entre Brecht e Walter Benjamin de um lado e Georg Lukács de outro. [32]
Não se pode negar que a tecnologia, apesar de seu funcionalismo meramente mercadológico no capitalismo, foi e continua sendo uma revolução nos meios de arte e de reprodução de informação. Nas primeiras décadas do século XX ela causou um impacto para aqueles artistas acostumados à produção manufaturada das obras, como na pintura. No entanto, no ambiente de esquerda começou a surgir o questionamento sobre a utilidade destes aparelhos, quem os detém ou se davam para ser assimilados no sentido da transformação social. Brecht tinha consciência disto: “Essa falta de clareza sobre a situação, que hoje predomina entre os músicos, escritores e críticos, acarreta conseqüências graves, que não são suficientemente consideradas. Acreditando possuir um aparelho que na realidade os possui, eles defendem esse aparelho, sobre o qual não dispõem de qualquer controle e que não é mais, como supõem, um instrumento a serviço do produtor, e sim um instrumento contra o produtor.” [33] Como se percebe neste momento o termo produção (no sentido de quantidade) já não é somente relacionado ao econômico. A arte aliada à tecnologia cria um mercado próprio, mercado este que está associado a demandas de produção cultural: é o auge do processo de massificação e reprodução da arte (fotografia, cinema, música, montagem); porém, quando falamos em massificação, no capitalismo, não devemos entender como democratização desses meios, mas sim como um aumento de mercado consumidor deste tipo de mercadoria, pois o que vale é a mercantilização. A arte está neste momento totalmente conquistada.[34]
Brecht, no entanto, pretende transformar os espectadores eles próprios em produtores sociais (aquele que poderá mudar a sociedade) e artísticos. Ele soube apropriar as novas relações técnicas surgidas então, conseguiu aproveitar sua situação nestas relações num “esforço no sentido de produzir algo que tomasse como pressuposto o novo tipo de percepção, desenvolvidos pelos métodos de trabalho e condições de vida decorrentes da industrialização capitalista.”[35] Como Benjamin acreditava, o fator crucial estava na transformação daqueles consumidores em “colaboradores”. Assim, se este acreditava que o autor produtor é aquele que ensina a produzir, no teatro brechtiano o ator/cientista deveria ensinar (não no sentido de dizer o que fazer, e sim no de faça voçê mesmo) o público a ser cientista.

Brecht é complementado pelas palavras de Benjamin ao afirmar que a obra que se mantesse nas linhas da produção capitalista (dentro do aparelho burguês de produção e reprodução), “por mais revolucionárias que pareça, está condenada a funcionar de modo contra-revolucionário, enquanto o escritor permanecer solidário com o proletariado somente ao nível das convicções, e não na qualidade de produtor.” [36] Usar os aparelhos cairia no risco de alimentá-lo e só a transformação real onde a obra se situa é que o revolucionaria no sentido social desejado. Isso aconteceria quando o aparelho de produção não só ensinar o que é a produção, mas fazer do espectador um produtor. Para Benjamin este aparelho exemplar é o teatro brechtiano - que, aliás, o achava um exemplo de novo artista. Brecht soube ser o autor-produtor que Benjamin reclamava para os artistas, soube se situar dentro das relações de produção, usando as novas técnicas capitalistas (tecnologias em geral enumeradas anteriormente) em função do socialismo. A base da idéia de Brecht em relação às novas técnicas (expostas no ensaio O autor como produtor de Benjamin) era a seguinte.
Karl Marx acreditava que “em um certo estágio de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não é mais que a expressão jurídica disso, com as relações e propriedade no seio das quais haviam se movido até então. De formas de desenvolvimento das forças produtivas que eram, estas relações transformam-se em seus entraves. Abre-se então uma época de revolução social.”[37] Brecht/Benjamin perceberam que esta dialética poderia ser localizada no campo da arte, que as forças produtivas materiais e intelectuais também entrariam em choque. As técnicas de produção artísticas, entrando em contradição com as forças de produção (capitalista), a partir do uso, da aplicação a contrapelo e da conseqüente modificação daquelas técnicas, desbancariam numa superação de ambos. Até nossos dias não há leituras tão propriamente marxistas e originais aplicada à cultura como esta.

4 - O CASACO DO HEREGE

Bertolt Brecht vai se tornar marxista no fim da década de 1920. Antes ele havia produzido peças que tinham pretensões mais relaxadamente revolucionárias do que uma análise propriamente marxista da sociedade: Tambores na noite, Na selva das cidades, Um homem é um homem. A partir desta última, de1926, ele dá um tempo para ler os três livros d’O Capital. Temas econômicos passam a entrar em suas novas peças, mas a sua contribuição é maior em discussões de fundo associadas a questões éticas, morais e filosóficas tais como o consentimento, a bondade, a violência, o sacrifício, o heroísmo, o racismo e outros. Neste momento seus escritos teóricos se avolumam e se mantêm em constante dialética com os movimentos da época, do Brecht pré-Hitler vamos encontrar um teatro absolutamente tendencioso, aberta a novas opções, principalmente depois dos movimentos revolucionários de 1918, 1919 e 1921. O exílio na Dinamarca em 1933 e depois nos Estados Unidos trouxe uma maturidade intelectual considerada por alguns críticos como a sua melhor “fase”. Desta época incluem-se obras como A vida de Galileu, Mãe Coragem e seus filhos e Os fuzis da Senhora Carrar. De volta à Alemanha, agora comunista, seu teatro vai obedecer e resistir aos ditames do partido que lhe impõe temas, censura passagens de poemas e peças e intervém nas apresentações. Maleável em suas teorias, Brecht em todos esses momentos vai em busca de um teatro que fosse revolucionário. Deste modo não dá para separar o teatro de Brecht de um teatro político, todas as tentativas de desalinhá-los nos sentido de figurar o artista e o político serão inúteis. John Willet em seu livro O teatro de Brecht tenta fazê-lo de modo um tanto ingênuo (“Willet não me parece intelectualmente equipado para discutir o problema que levantou” [38]) tanto quanto Martin Esslin no seu Brecht: dos males, o menor que põe a política do dramaturgo como um amortecedor psicológico de alguém atormentado pelo choque do instinto e da razão.
Contudo, devemos analisar Brecht sob sua óptica da sociedade burguesa e da arte burguesa. Ele se assemelha muito ao que Karl Marx produziu no século XIX. A obra deste tem um único fim: teorizar a sociedade burguesa em sua medula e a sua conseqüente superação por meio da revolução proletária. Brecht ataca todas as formas de exploração desta sociedade, o capital especulativo, a mais-valia, a lógica do mercado, o lucro desmesurado. Mas sua contribuição maior está na capitalização da arte e da sua influência ideológica e alienante como um fator também crucial – termos como estrutura e superestrutura não fazem parte do seu vocabulário, daí sua importância, como um marxista divergente para o “marxismo ocidental”, assinalado por Perry Anderson[39]. Aí que nascem as tentativas de Brecht em torno da produção de um teatro anti-alienante, revolucionário, e por isso, científico. Ele então vai de encontro à tradição romântica alemã (Goethe e Schiller) e ao teatro naturalista que diz pôr a realidade dentro do palco. Mas seu ataque principal é às idéias que influenciaram todas essas correntes, o teatro aristotélico e a poética hegeliana. Brecht traça os mesmos caminhos de Marx contra a filosofia de Hegel, mas não na crítica filosófica e como fez o segundo, mas à desmistificação da sua poética idealista.
Brecht também retira o termo “épico” à poesia épica descrita por Hegel no livro A Poética, que seria a descrição objetiva dos acontecimentos. Para o filósofo esta forma poética ainda que sendo objetiva era determinada por forças morais exteriores ao indivíduo, um espírito maior, que é o Espírito da época presente. A poética épica, aparentemente objetiva, junta-se à poesia lírica, subjetiva; combinadas produziam a poética mais perfeita, a dramática onde “os espectadores são transportados à época e ao lugar onde ocorre a ação, e ambos estão no mesmo tempo e no mesmo lugar. Por isso, a empatia, a relação emocional presente e viva é possível apenas na poesia dramática e não na épica.” [40] Cabe lembrar que em Hegel a subjetividade, as paixões humanas, são apenas um meio pelo qual a razão, propulsora da história, se exterioriza. O embate entre o objetivo (épica/ações) e o subjetivo (lírica/emoções), esta dialética, tenderia ao repouso (síntese). A dialética e a poética idealistas, pondo o espírito acima da realidade, ainda que litigiosas, apresentavam-se equivocadas num certo sentido, pois a história se torna aí uma execução de planos divinos e não humanos.[41]
É a empatia causada pelo teatro dramático baseado na dialética do repouso que Brecht irá contrapor. A poética dramática de Hegel acaba pondo em ascensão os grandes homens, heróis, personagens fáceis de serem simpatizados dentro de um palco, já que recorrem à emocionalidade do público. Mesmo que o sujeito para Hegel não seja absoluto, como pensou equivocadamente Augusto Boal[42], no palco os personagens são sublinhados exarcebadamente. O problema então, para Brecht, estava em tirar a preponderância do personagem representado, para que a empatia não acontecesse, e essas armas ele encontrou na dialética marxista, o materialismo histórico. Assim como Marx apenas converteu a dialética de Hegel, Brecht virou a poética hegeliana de cabeça para baixo. No trabalho de tirar a áurea do personagem ele acabou transformando esse em objeto de forças econômicas e sociais.[43] Diz ele de seu teatro: “1. O ser social determina o pensamento (personagem- objeto) (...) 3. Contradições da força econômica, sociais ou políticas movem a ação; a peça se baseia em uma estrutura das contradições (...) 7. O conflito não se resolve [ao contrário de Hegel] e emerge com maior clareza a contradição (...) 9. O conhecimento adquirido revela as falhas da sociedade.”[44]
Fica a pergunta simples: será que virar esta dialética não significa persistir no mesmo erro, quer dizer, a questão não é girar de ponta-cabeça e pronto, talvez essa não tenha sido nem a proposta de Marx, pelo menos não é o que se espera de um dialético. É confuso pôr as palavras “determina” e “contradições” numa mesma lógica; na primeira percebemos logo certo teor de mecanicismo, mas quando pensamos em contradição vem logo à mente a incoerência de duas (ou mais) forças antagônicas, ou seja, a dialética aí é visível. Vemos que o problema não é “virar” mas saber se essa conjuntura se mantém, se não, se este estado é dinâmico, então não há nenhuma incongruência. No caso de Brecht, muitas de suas peças, demonstram a incorrespondência, contradições, entre sujeitos e forças sociais. Veja-se o caso da peça Santa Joana dos Matadouros, em que a jovem Joana tenta lutar pela justiça social apenas por obras de caridade, algo que Brecht mostra como sendo um absurdo. Aí se acha as “contradições que movem a ação.”

Talvez o erro grosseiro de Brecht fosse identificar a emoção com uma questão de subjetividade. Como foi dito anteriormente ele foi de encontro ao subjetivismo predominante no teatro da época, como uma estratégia artística, mas também o implementou como estratégia filosófica, com o marxismo. A objetividade foi uma arma em dois flancos, numa guerra a favor de um teatro revolucionário. É verdade que ele não era absolutamente contra a emoção na arte, pois, como ele dizia, as emoções verdadeiras vinham daquelas originárias das descobertas científicas. A emoção seria o passo adiante para a revolução, só que antes disto o cientista (o espectador) deve ater-se na objetividade, na secura e na observação crítica da sociedade. “O ponto essencial do teatro épico é, talvez, apelar menos para os sentimentos do que para a razão do espectador.” [45]
Para ser revolucionário ele tem que dizer primeiramente que aquilo é somente ilusão. Brecht lutava ainda contra a tradição aristotélica do teatro. Aristóteles, no livro A Poética descreve os movimentos de um teatro que tem como finalidade a catarse (mais ou menos como a dialética do repouso de Hegel), um instrumento usado para aplainar e confortar os sentimentos dos espectadores de teatro. Estaria dividido em dois sentidos: primeiramente causar terror e a piedade no público: “No conceito de pensamento se incluem todos os efeitos que devem ser produzidos pelo discurso... a excitação de sentimentos tais como a piedade e o terror, e outros semelhantes.” [46] Esses sentimentos causam impacto na psicologia dos que os assistem, põem as emoções à flor da pele, excitam, para acabar no relaxamento e no repouso, todas as energias são descarregadas no ínterim da peça, a revolta pela falta de emprego, os preços caros, o ódio contra o patrão e outros problemas, são canalizados para o drama e ali acabam. A excitação era mediada pelo ator a partir da identificação com o ator, quanto maior a identificação público-ator, maior seria a empatia e a ilusão. Aqui reside a crítica de Brecht contra este teatro, ele queria que o palco fosse uma tribuna[47] onde conflitos não fossem resolvidos, deixando para que a platéia o faça. Daí mais um motivo para o afastamento das emoções no teatro. A identificação, que faz com que as emoções se dilatem e a ilusão do teatro se consolide, seria mediante o afastamento, o que Brecht chamou de Verfremdungseffect ou “Efeito V”, estranhamento, distanciamento. Para isso ele usava de meios já assinalados anteriormente – o gestus, as tecnologias, o cenário, o ator, as fotografias, desenhos etc.
Para acabar com o efeito de ilusão as cenas são deslocadas umas das outras, assim a narrativa não encantaria o espectador com o desenrolar dos acontecimentos. Brecht usava da música em suas peças para fazer essas pausas, quebrando brutalmente com as cenas, mostrava assim a todo o momento que o espectador estava num teatro vendo acontecimentos que não são reais. Também se usavam figurinos extravagantes, desproporcionais, muito influenciados pelos clowns, também produziam maquiagens aberrantes (a influência dos teatros japonês, chinês e indiano é patente). Não poderia ser criado clima de suspense, para não criar ansiosidade com a narrativa: “No teatro épico, o autor pode dispensar o entediante ritual da exposição naturalista por intermédio da qual os personagens tem de estabelecer, laboriosamente, seus nomes e relações dentro do esquema de uma conversa aparentemente natural, ‘casual’; poderá então fazer com que eles se apresentem diretamente à platéia, ou então projetar seus nomes sobre uma tela. Pode ir mais longe: pode dizer de antemão à platéia como a peça terminará (...)” [48]

5 - BRECHTIANAS

O PALCO E O PARTIDO – Como o partido comunista viu esse chamamento do público a pensar de forma “autônoma”? Durante toda a sua carreira como dramaturgo de fama na Alemanha (a partir de 1922, com o sucesso de A ópera dos três tostões) o seu relacionamento primeiramente com a crítica marxista e depois, de 1947 à sua morte em 1956, com o partido comunista, Brecht sofreu perseguições e censuras destas pessoas que se diziam guardiões do marxismo. A pergunta que eles sempre faziam era se Brecht era ou não marxista, ou melhor, se obedecia ao credo artístico oficial do partido, o realismo socialista. Mas como pode um autor que acreditava na autoprodução do público se aproximar com o partido que defendia o vanguardismo de uma classe de profissionais da revolução, se a própria concepção de partido não se ajustava à da livre inquirição dos espectadores? Como pode, se Brecht defendia a não-identificação do ator com o público e o partido exclamava ser o método de Stanislavski, o contrário do que ele pregava, o modelo do marxismo na arte teatral? Como pode um partido que impunha esquemas, dizendo-se “a concepção de mundo cientifica da classe operária”, como afirmava Stálin, aceitar alguém que tinha horror aos dogmas e escrevia que sua “tarefa não é provar que tive razão, mas descobrir se eu tive razão” e chamar a atenção para que isso seja crucial para um marxista?
Uma das grandes críticas que o partido lhe fazia era relacionada à falta de tendencionismo maior, de que a propaganda a favor da revolução (ou do partido?) era insuficiente. Nem eles não cuidavam de ler o que, por exemplo escreveu Engels: “Creio que a tendência deve surgir da própria situação e da própria ação, sem que seja explicitamente formulada. O poeta não é obrigado a dar pronta aos leitores a futura solução histórica dos conflitos que descreve.”[49] Ora, para Brecht o que importava era provocar o público, para que pensasse nos problemas apresentados no palco e então encontrasse uma resposta por si. Suas peças jogavam as questões e não dava nenhuma pista para as soluções, em outras palavras, o teatro brechtiano estimulava por demasia o autonomismo do público para que o partido aceitasse. Este que deveria levar a consciência de classe para a própria classe, como queria Lênin, não poderia admitir que alguém pudesse insuflar a própria classe a levantar-se sozinha. “Friedrich Wolf [crítico marxista] repreendia Brecht por deixar que o público tirasse suas próprias conclusões (...)” [50] (grifo nosso)
“O partido não queria que o público fosse colocado em estado de espírito crítico. Queria que o público fosse hipnotizado e se tornasse incapaz de criticar por ter suas emoções completamente engajadas a favor dos personagens positivos e contra os negativos.” [51] A verdadeira estética marxista para o teatro era a técnica de Stanislavski, da identificação do público com os personagens. Ou seja, para o partido o velho teatro aristotélico tinha razão, a divisão entre bons e maus estava coerente com a divisão entre proletariado e burguesia. A idéia de uma natureza humana entre mocinhos e vilões rebaixava todo o materialismo dialético, a questão se torna uma discussão de caráter e não de relação social. Ora, os burgueses não são maus, eles estão dentro de uma relação de produção que, para manter sua riqueza, dependem da exploração do proletariado - esta interpretação materialista estava longe de suas cabeças. Mas o maniqueísmo do partido (e da tradição marxista) foi uma forma de comprovar as teses stalinistas da revolução. Como exemplo, temos a tese da luta entre países pobres (subdesenvolvidos) e países ricos (desenvolvidos e imperialistas). Usada para justificar o “socialismo num só pais” esta tese transpôs-se para a medição de uma arte verdadeiramente marxista, nos moldes dos personagens positivos e personagens negativos.

O REALISMO SOCIALISTA – “O camarada Stálin chamou os nossos escritores de engenheiros da alma humana. Esta definição tem um significado profundo. Ele fala da enorme responsabilidade dos escritores soviéticos no que se refere à educação do povo, à educação da juventude. E fala da necessidade de não tolerar a dissipação no trabalho literário (...). Guiado pelo método do realismo socialista, estudando, atenta e conscienciosamente, nossa realidade, esforçando-se para penetrar, mais profundamente, na essência do processo de nosso desenvolvimento, o escritor deve educar o povo e armá-lo ideologicamente.” [52] Em 1934 as artes que se dedicavam ao socialismo marxista viram defronte o nome de A. A. Zdanov, braço direito de Stálin para o campo das artes. Ele havia assumido o lugar de Lunatcharsky membro do Comissariado da Instrução desde a Revolução de 17, defensor, junto com Bukharin, do proletkut e das diversas vanguardas surgidas na Rússia desde a década de 1910 e que se demitira em 1929 mediante pressões de grupos como a AKRR (Associação de Artistas para o Estudo da Vida Revolucionária). Ele era apreciado por várias tendências artísticas, de vanguarda ou não: Tatlin, os construtivistas, Malevitch, Rodchenko, Filonov, Meyerhold, os cubos-futuristas (como Maiakovski), suprematistas. No entanto, desde 1928, as tendências conservadoras vinham impondo o cerceamento destes grupos. Em Abril de 1932 um decreto (nada tão burocrático quanto!), Sobre a reorganização dos grupos literários artísticos, determina a dissolução dessas correntes. Com o Primeiro Congresso de Todas as Uniões de Escritores Soviéticos, em 1934, viria o último golpe – o realismo socialista estava inaugurado.
As obras passaram a ser carimbadas como sendo ou não realista. Se não elas seriam consideradas repositórios da decadente sociedade burguesa, com seu vanguardismo ininteligível, ou então será uma obra formalista, sem conteúdo, apenas com preocupações estético-formais, ou mesmo naturalista, com o seu aspecto “pessimista e degradante”. Brecht se familiarizaria com o termo formalista. Muitas peças suas peças eram tachadas de ingênuas, idealistas, simbolista, formalistas, naturalistas, pequeno-burguesas, perniciosas. “O conflito entre razão e emoção é... a experiência básica do intelectual burguês a ponto de se unir com o proletariado revolucionário. Em sua maneira idealista de encarar o problema é tipicamente pequeno-burguesa, intelectualizada.”, escreveu o crítico comunista Alfred Kurela a um diário moscovita sobre a peça As medidas tomadas. A crítica parece isenta de compromisso, mas a questão então em relação á obra é mais política que estética. A peça, de 1930, trata do assassinato de um comunista por seus próprios colegas; ele consente em ser morto devido a erros pessoais seus, morre em nome do partido. No julgamento dos assassinos eles são absolvidos por não terem culpa em matar por uma causa maior, o partido. A peça causou muita dor de cabeça aos membros do partido alemão. Brecht estaria insinuando possíveis execuções internas dentro do partido, o que era estarrecedor para os burocratas. No entanto, em 1956, com as denúncias do stalinismo todos se calariam diante da obra, um anúncio do que acontecia na U. R. S. S na mesma época.
O realismo socialista, como queria Zdanov, deveria retratar a realidade no sentido da “educação do proletariado no espírito do socialismo.” [53] Como? Com realismo subentende-se uma arte que não fugisse de uma descrição sem idealizações, objetiva, crua. Agora, o que o partido entendia com Socialismo? A obra socialista não poderia tematizar apenas a revolução, mas também o partido? Como escreveu Paul Wood, “é importante não caricaturar o realismo socialista (...) um dos problemas é que a doutrina não estabelecia um conjunto de prescrições sobre estilo (...)” [54] Isto quer dizer que no fim das contas o realismo socialista foi se afirmando mediante o que ele contradizia (já que era ele quem decidia o que era socialismo ou não). Na verdade, ele foi mais um instrumento de perseguição política que um sistema estético dado, uma arma para perseguir aqueles que o incomodavam de modo mais aberto em debates na imprensa ou em outros meios, pelo menos isso acontecia com artistas fora da União Soviética porque os de lá, como Maiakovski, Meyerhold, Gorki, só conseguiram encontrar a morte.[55]

ARTE LONGE DA VIDA – O realismo socialista pretendia que a realidade estivesse retratada fielmente nas obras. Ora, no teatro Brecht queria justamente o contrário – a realidade não deveria ser rígida, minuciosa e cirurgicamente exposta no palco, porque se assim fosse ele estaria enganando o público ao afirmar que aquilo que acontecia no palco era real. A contenda entre o realismo socialista e Brecht era inevitável. Assim foi que as críticas pontuavam todos os elementos que compunham o Efeito V do teatro épico, a música, a atuação dos atores, a cenografia (“por que as árvores não têm folhas?” [56], perguntou um crítico a respeito de uma peça), os temas e narrativas (o julgamento de um morto em o julgamento de Luculus).
Num certo sentido podemos dizer que o teatro de Brecht afasta a vida da arte, ele os separa para fins revolucionários, acreditava. Pelo menos a forma teatral exigia esta discórdia, pois quanto mais real uma peça mais mistificadora ela poderia ser. O fato de o público estar diante de uma sucessão de acontecimentos facilita a identificação entre o público e o enredo, o que na televisão não é tão acentuado. A sensação de estar dentro da trama, de viajar junto com os desdobramentos factuais e psicológicos do ator é inebriante – ou melhor, alienante, como dizia Brecht. Por isso era mediato o afastamento da realidade nas obras, mas isso não quer dizer que os problemas apresentados não existissem, a questão era que o espectador não pensasse que aquilo só existia ali, naquele momento, no intervalo da apresentação. É a partir deste momento que a aproximação fiel da vida com a obra de arte se tornava um perigo social.

OBRAS INCOMPLETAS – É difícil empreender qualquer trabalho que abarque o pensamento, a obra, as relações políticas de Bertolt Brecht. No Brasil isso é ainda mais difícil. Vezes por outra surgem novos documentos com suas opiniões e comentários. Qualquer coisa nova pode acabar negando trabalhos inteiros. Por isso o universo de Brecht (e sua personalidade) é intraduzível. Se é que se pode dizer assim, ele foi a dialética em pessoa, sempre em constante mudança, nos pensamentos e atitudes, daí sua incorrespondente descrição. Brecht poderia ser considerado um adjetivo, sem significado acabado, apenas com verbete no dicionário. Brecht ainda continua sendo feito.
Dentro do bojo marxista Brecht assimilou apenas o que era mais importante desta teoria, o método dialético materialista da análise social. É certo que ele queria ser marxista, mas foi mais que isto foi um materialista dialético como poucos no século XX. Enquanto resistia cinicamente às censuras e pressões do partido, enquanto desenvolvia sua teoria aos moldes científicos empíricos, enquanto fornecia elementos para o aproveitamento tecnológico para a arte, enquanto criticava a sociedade burguesa a partir dos seus aparelhos. Ele estava na contracorrente da maioria dos que se diziam pensar “marxistamente”, conseguiu fazer aquilo que Benjamin reclama ao historiador, “escovar a história a contrapelo.” Num momento em que a crítica ao stalinismo ainda não era uma questão de comedimento e de oportunismo, ele chegou a dizer: “... Não é da alçada do partido marxista-leninista organizar a produção poética do mesmo modo que gerencia uma granja. Se assim for, os poemas serão como ovos, uns iguais aos outros.”[57] Essas palavra são suficientes.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

HAUSER, Arnold. História social da literatura e da arte. Trad.: Álvaro Cabral. São Paulo. Martins Fontes, 1998.
HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos Trad. Marcos Santarrita. São Paulo. Companhia das Letras, 1995.
SÉRGIO, Mário. Sobre Brecht. Lisboa. Biblioteca Umeiro.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. Trad.: Artur Morão. Lisboa. Edições 70, 1964.
BRECHT, Bertolt. Antologia poética. Trad.: Edmundo Muniz. Rio de Janeiro: Elo editora, 1982.
BARTHES, Roland. As tarefas da crítica brechtiana. In: Ensaios críticos. Trad.: Antonio Messano e Isabel Pascoal. Lisboa: Edições 70, 1971.

NOTAS:

[1]BRECHT, Bertolt In: ESSLIN, Martin. Brecht: dos males, o menor. Trad.: Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1979. P. p. 111
[2] BRECHT, Bertolt, A vida de Galileo Galilei. Ciudad de La Habana - Cuba. Ed. Arte y Literatura. 1981. P. p.: 157.
[3] BRECHT In: ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.:244
[4] Ou seja, num momento em que o Brasil passava por um boom cultural em todas as áreas, inclusive no campo editorial. O fato de até agora não haver outras reedições dá-nos a precisão que realmente algo se perdeu. Ver: RIDENTI, Marcelo. Em busca do povo brasileiro. Artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de Janeiro. Record, 2000.
[5] FRANCIS, Paulo In: WILLET, John. O teatro de Brecht. Trad.: Álvaro Cabral. Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1967. P. p.: 9
[6] Galy Gay é um portuário que é convencido por três soldados do exército britânico na Índia a se transformar num soldado que havia desaparecido. Ele vai aos poucos se transformando em outro homem, até chegar a tramar o enterro de sua outra identidade.
[7] ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.:289
[8] BRECHT In: ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p. 52
[9] Um marxismo diferente de todo marxismo que conhecíamos, escreveu quando descobriu Brecht no fim dos anos 1950. WILLYANS, Raymond. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1979.
[10] WILLET, John. Op. Cit. P. p.:212
[11] BRECHT In WILLET, John. Op. Cit. P. p.:226
[12] Idem P. p.: 226
[13] FEUCHTWAGNER, L. In: ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.:33
[14] BENJAMIN. Walter. O que é teatro épico. In: Obras escolhidas. Trad.: Sérgio Paulo Rouanet. São Paulo. Brasiliense. 1994 Vol.: l. p. p.: 80
[15] BRECHT In.: BOAL, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1983. P. p.:124
[16] PEIXOTO, Fernando. O que é teatro. São Paulo. Nova cultural: Brasiliense, 1986. P. p.:106
[17] ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.:135
[18] BRECHT In WILLET, John. Op. Cit. P. p.:214
[19] A peça, uma adaptação da original de Jacob Lenz, narra a história de Laeuffer, preceptor de uma jovem. Ele acaba tendo relações com a aluna, engravidando-a; quando descoberto é expulso da casa dos pais da moça, mas acaba buscando refúgio na casa de um mestre-escola. Lá sente desejo pela filha do anfitrião e, para não arruinar sua carreira, ele se castra. A obra é uma crítica aos intelectuais alemães que se “castraram” intelectualmente diante da ascensão do nazismo, para não enfrentá-lo.
[20] BRECHT In: ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.:149
[21] Mahagony é uma cidade-bordel fundada por prostitutas. Nela o que vale é ter dinheiro. A narrativa conta a ascensão da cidade com o lucro provido deste negócio. Três lenhadores vão a busca da cidade e lá gastam todo o dinheiro que tinham até que cada um morre aos poucos devido aos excessos de devassidão, um morre de tanto comer, outro numa luta de boxe e o último é executado devido ao maior pecado de todos: ele não tinha mais dinheiro.
[22] BENJAMIN. Walter. Op. Cit. P. p.: 84
[23] BRECHT In WILLET, John. Op. Cit. P. p.: 94
[24] PISCATOR, Erwin. O teatro político. Trad.: Aldo Della Nina. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1968. P. p.: 57.
[25] WOOD, Paul. Realismos e realidade In: FER, Brion, BATCHELOR, David e WOOD, Paul. Realismo, racionalismo, surrealismo: a arte no entre - guerras. Trad.: Cristina Fino. São Paulo, Cosac & Naify Edições, 1998. P. p.: 285
[26] Plekhanov, ao contrário, sem nenhuma leitura dialética, põe superação da natureza como propulsão que move a história. PLEKHANOV, Guiorgui. A concepção materialista da história. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1980. P. p.: 32
[27] O texto original, de 1928, foi alterado. Lindbergh (aviador real) passa a ser chamado de “os aviadores” devido à futura adesão do aviador ao nazismo anos mais tarde, e também para provar que a coletividade está por trás de todas as conquistas tecnológicas.
[28] BRECHT, Bertolt. O voo de Lindbergh. In: Teatro completo. Vol 6. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. P. p.:139
[29] MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Trad.: Luís Cláudio de Castro da Costa. São Paulo. Martins Fontes. 1989. P. P.: 26/27
[30] BRECHT, Bertolt. Op. Cit. P. p.:. 138
[31] Idem p. p: 148
[32] WOOD, Paul. Op. Cit. P.p.: 326
[33] BENJAMIN. Walter. Op. Cit. P. p.: 78/ 79
[34] Há um importante estudo de Benjamin sobre as origens desde fenômeno: BENJAMIN, Walter. Charles Baudelaire: um lírico no auge do capitalismo. Trad.: José Martins Barbosa e Hemerson Alves Batista. São Paulo. Brasiliense, 1989
[35] KOTHE, Flávio. Para ler Benjamin. Rio de Janeiro. F. Alves, 1976 p. p.: 98
[36] BENJAMIN. Walter. O autor como produtor. Op. Cit. P.p.: 125/ 126
[37] MARX, Karl In: PLEKHANOV, Guiorgui. Op. Cit. P.p.32
[38] FRANCIS, Paulo In: WILLET, John. Op. Cit. p. p.: 9
[39] ANDERSON, Perry. Considerações sobre o marxismo ocidental. Trad.: Marcelo Levy. São Paulo. Brasiliense, 1976. P. p.: 130. Benjamin também soube apreciar o trabalho de Brecht para a idéia do socialismo e da arte em geral.
[40] BOAL, Augusto. Op. Cit. p. p.: 109
[41] COLLINGWOOD, R. G.: A idéia de História. Lisboa. Editorial Presença. P. p.: 153
[42] Que faz uma análise tipicamente grosseira característica da esquerda brasileira desde a década de 1960. Cf. RIDENTI, Marcelo Em busca do povo brasileiro. Artistas da revolução, do CPC à era da TV. Rio de Janeiro. Record, 2000.
[43] Daí Boal dizer que a poética de Brecht não é épica, que reporta à Hegel, e sim marxista.
[44] BRECHT In: BOAL, Augusto. Op. Cit. p. p.: 117
[45] WILLET, John. Op. Cit. P. p.:216
[46] ARISTÓTELES In: BOAL, Augusto. Op. Cit. p. p.: 44
[47] Schiller tinha o mesmo fim, mas ele usava esta tribuna que é o teatro para comprovar suas teses, as respostas, ele mesmo as dava.
[48] ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.: 137
[49] VER. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Sobre Literatura e Arte. Lisboa. Editorial Estampa, 1977.
[50] ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.: 210.
[51] Ibdem. P. p.:214
[52] ZDANOV. A. A. In: ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.:212
[53] ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.:213
[54] WOOD, Paul. Op. Cit. P. p.:325
[55] Maiakovski oficialmente cometeu suicídio mas pouco se sabe da real causa de sua morte. A morte de Gorki também está envolta a muitos mistérios.
[56] ESSLIN, Martin. Op. Cit. P. p.:214
[57] BRECHT In: WOOD, Paul. Op. Cit. P. p.:328

ZUNÁI - Revista de poesia & debates

http://www.revistazunai.com/ensaios/sergiano_silva_brecht_e_o_marxismo.htm

quinta-feira, 20 de maio de 2010

La escena ubicua: Hacia un nuevo modelo de "sistema teatral nacional"1

Gustavo Remedi

Una de las dificultades que encontramos quienes estudiamos y enseñamos acerca del teatro en América Latina es la de estar siempre alerta respecto a la relación entre lo que entendemos por "teatro," por "América Latina," por el "estudio" del teatro, la formalización e institucionalización Del discurso crítico y pedagógico (en escuelas y talleres, cursos universitarios, publicaciones, etc.), las imposiciones ajenas a nuestro tema de estúdio derivadas de la historia y la diferente institucionalización de dichos discursos en diversas culturas nacionales, así como las ideas y el conocimiento que producimos y difundimos como resultado de toda esta labor. Esto seguramente no sorprende, o no debería sorprender, a nadie: sabemos que el estudio del teatro además de ser una actividad intelectual individual es una práctica social que tiene lugar en una sociedad y una cultura determinadas en el marco de un conjunto de instituciones y discursos culturales circulantes que lo enmarcan y atraviesan, y que lo que estudiamos es, sobre todo, un efecto de esa práctica social, de una cultura nacional, de determinadas instituciones y subculturas nacionales. De todos modos, aun siendo plenamente conscientes de estas relaciones y determinaciones así como de las consecuentes distorsiones, puntos ciegos y malentendidos a que dan lugar, igualmente solemos, por razones de hábito o comodidad, dejar un poco de lado estas cuestiones de base en detrimento de un tratamiento más consecuente de nuestra labor crítica y docente. Particularmente problemático, y hasta cierto punto dañino, es el modo en que una noción demasiado reducida, arcaica y estática de sistemas teatrales nacionales funcionó, y sigue funcionando, como anclaje de la noción de teatro latinoamericano, de su estudio y de su divulgación.
Es precisamente esta noción de sistema teatral nacional, cuya utilidad no persigo cuestionar, lo que propongo poner al centro de la siguiente reflexión, a fin de formular, eso sí, una noción más amplia, inclusiva y dinámica que sea realmente capaz de acoger al teatro lationamericano contemporáneo en toda su extensión y complejidad. De esto, a su vez, va a depender "lo que estudiamos" cuando estudiamos "el teatro de América Latina," y porqué es necesario empezar a pensar el teatro de otra manera y a estudiar, y enseñar, otras cosas. A fin de llegar a tal reformulación intentaré establecer las distintas corrientes o vetas que a mi juicio alimentaban y constituían un sistema teatral nacional tradicional, dentro del cual el teatro "moderno" o "culto" era apenas una de sus expresiones, así como las diferentes vetas o espacios que conforman el sistema teatral nacional contemporáneo. A tales efectos será preciso no sólo pensar en el teatro sino en la historia del "discurso acerca del teatro" (su historia, sus etapas, sus espacios, sus premisas, sus objetivos, etc.).
Desde el punto de vista argumentai, tanto para ofrecerla a modo de ilustración y "textura" como a modo de evidencia y base de esta proposición, utilizaré una casuística proveniente principalmente de la experiencia uruguaya, que es la que conozco más a fondo, y que el lector encontrará en el texto paralelo de las notas, sin por ello renunciar a una cierta validez generalizable al teatro latinoamericano en su conjunto de las hipótesis, argumentos y modelos aquí propuestos.

I . El estudio del teatro

Lo primero que es preciso apuntar es que este ensayo o reflexión no surge caprichosamente ni en el vacío sino que es una reacción y una respuesta al estado de la crítica teatral actual, de la que también participó, institucionalizada en forma de páginas culturales en revistas, suplementos y semanarios,2 en investigaciones y publicaciones en revistas especializadas,3 en congresos, encuentros y conferencias, en centros educativos.
En efecto, cuando uno asiste a tales congresos, o revisa programas de cursos, u hojea las diversas publicaciones especializadas uno facilmente puede constatar que la institución de la crítica teatral suele dedicarse y privilegiar de manera desmesurada el estudio de un conjunto bastante reducido y repetido de obras, autores, grupos de teatro4 consideradas aceptables y cultas en determinado momento y lugar, usualmente presentadas, recogidas y celebradas en antologías, muestras y festivales de teatro,5 en detrimento del conjunto -bastante más vasto, complejo y rico - de los diferentes "sistemas teatrales nacionales."6 Entre algunas excepciones a lo que es habitual, que son más bien escasas e infrecuentes, podemos mencionar los trabajos de Isabel Martin,7 Pedro Torres Godoy,8 Ileana Azor,9 Silvia Pellarolo y Lola Proaño,10 Alicia del Campo,11 Javier Sanjinés,12 Hernán Vidal,13 Diana Taylor,14 Marina Pianca,15 Donald Frischmann,16 Randy Martin,17 Judith Weiss et al,18 Gustavo Geirola,19 entre otros.
En sus repasos recientes de la escena teatral rioplatense, Roger Mirza20 y Osvaldo Pellettieri,21 por su parte, han reconocido la existencia de "otros teatros," de "teatros emergentes" y hasta de teatros por fuera del "teatro de las clases medias" (Mirza 1998a; Pellettieri 2002). Tanto Mirza como Pellettieri, sin embargo, básicamente se limitan a validar determinadas propuestas experimentales y vanguardistas puntuales sin necesarimente cuestionar su conceptualización básica de sus respectivos "sistemas teatrales nacionales," los cuales - experimento más, experimento menos – siguen reduciéndose a un teatro moderno o culto de clase media sin mayores novedades y sobresaltos.
Lo segundo que me interesa señalar es que el diálogo entre artistas, investigadores, críticos, docentes y activistas (uno de los objetivos expresos del reciente Encuentro del Instituto Hemisférico de Performance y Política; ver Nota 1) lo mismo que el necesario diálogo entre los distintos sectores sociales y subculturas que conforman nuestras culturas nacionales difícilmente se pueda concretar si el estudio del teatro se limita, de antemano, a definir como teatro y a atender solamente las intervenciones y propuestas teatrales que provienen de los espacios sociales y culturales de las clases medias cultas, de las salas del Centro,22 organizadas sobre la base de códigos "aceptables" y en consecuencia autorizados por la institución teatral. La posibilidad de cualquier diálogo presupone un reconocimiento del otro y de los espacios del otro - de la diversidad social - así como de los aportes y las distintas formas que esos otros escogen para expresarse y representarse, y que en el caso específico del teatro se traduce en formas de representación que "la gente del teatro" suele descalificar y desestimar como tales; formas y aportes a la sociedad, la cultura y la historia del teatro que, por otra parte, no nos dejan de entusiasmar y maravillar a quienes escogemos dejar de lado
los prejuicios y las definiciones, optamos por mirar más allá de las Salas del Centro, las Revistas de Especialistas y los Festivales de Teatro, y descubrimos una escena teatral - una cultura latinoamericana - insospechada, desbordante en su creatividad, en su fuerza, y en su importancia y significado tanto para las personas que toman parte de ellas (muchas veces las grandes mayorías), como para las sociedades y culturas en cuestión. Ni en las actuales circunstancias, ni en ningún escenario posible, nuestras sociedades pueden darse el lujo de prescindir, ignorar y de dejar de lado sus diferentes experiências y aportes culturales, y más concretamente, sus distintas teatralizaciones y teatralidades.
Un punto de partida posible para intentar corregir esta situación es comenzar por esbozar una historia de esta práctica social que es el estúdio del teatro. (Nótese que no me refiero a hacer teatro sino a estudiar el teatro, o variantes subsumidas o emparentadas de lo anterior, como reflexionar acerca del teatro, documentar, comentar, analizar, discutir, enseñar.). Dicha historia pone de manifiesto etapas del estudio del teatro de América Latina, así como procesos localizados paralelos según estemos hablando de un país de América Latina, de Estados Unidos. Es decir, hay diferentes historias del estudio Del teatro que pueden hablarse entre sí sin por ello disolverse o fundirse en una historia del teatro localizada en ningún lugar.
En el caso de América Latina, la reflexión y el estudio de los teatros "nacionales" (por lo general se suelen estudiar las manifestaciones teatrales divididas y organizadas por nación, o bien en "el contexto" de los procesos de cada nación, aún cuando se hagan referencias a movimientos estéticos y períodos históricos determinados) emergen como un espacio social y cultural relacionado a los proyectos políticos y culturales del siglo XIX. Los objetivos y los criterios para el estudio del teatro en el siglo XIX, por tanto, provinieron,
primero, de los proyectos de construcción de los Estados nacionales y lãs respectivas "culturas nacionales," y más tarde, de los discursos de modernización y crítica social de esas mismas culturas nacionales.
Lo que al principio se presentó bajo la forma de reflexión y comentario periodístico, ensayo o tema de oratoria en los distintos foros donde se reunían los artistas, los intelectuales y los políticos, en una segunda instancia adoptó un carácter más metódico, especializado y sistémico, materia de expertos y entendidos: los críticos y estudiosos del teatro. Los espacios ocupados y asignados a los expertos del teatro eran de diverso tipo: espacios en las páginas culturales de diarios y revistas, charlas y foros, programas culturales en la radio y más tarde, en la televisión.
En una tercera etapa el estudio del teatro pasó a ser una de las tantas actividades organizadas dentro de la educación formal, principalmente, la universitaria. Es en esta etapa donde hay que ir a buscar las raíces de la creación y desarrollo de cursos, profesores y carreras de teatro, de la organización de investigaciones y equipos de investigadores, de conferencias y simposios, de monografías y revistas enteras dedicadas al teatro.
Así, con el crecimiento de la cultura urbana, la clase media y la centralidad (entiéndase, la hegemonía cultural y simbólica) de ésta, en muchas de las sociedades latinoamericanas más modernas, el teatro (es decir, hacer teatro, ir al teatro, leer sobre el teatro) adquirió una creciente visibilidad, centralidad y representatividad dentro de la cultura de la clase media. La centralidad del teatro se debía, en parte, a que la cultura de clase media reconocía al teatro como una vía de desarrollo personal y como una forma de obtención de un cierto capital simbólico - necesario para el ascenso social y político - en la medida que el teatro permitía la adquisición de terminados conocimientos, discursos culturales y equipamientos (sicológicos, estéticos, emocionales), era una forma de participar en la cosa pública y en la vida ciudadana, y favorecía una serie de relaciones sociales y privilégios resultantes de tal participación. La representatividad del teatro, por su parte, permitió tomar al teatro como un símbolo o metáfora de la cultura nacional en general, es decir, como una estrategia o recurso de análisis, problematización y crítica de las culturas nacionales modernas - del sujeto nacional moderno - tanto por parte de los proyectos conservadores como de los proyectos reformistas o revolucionarios vernáculos.
Puesto que una sola obra de teatro difícilmente podía captar la totalidad cultural nacional, eventualmente se necesitó tomar en cuenta um corpus mayor de obras de teatro y destilar un canon o conjunto selecto de obras "representativas de la cultura nacional." Más allá de la intención de captar una totalidad (heterogeneidad) socio-cultural, sin embargo, los cânones de los teatros nacionales suelen apenas expresar una parte de la cultura nacional: la parte educada y letrada de la sociedad (propietarios del gusto, del valor estético y político), la cultura de la clase media, sus adeptos y emuladores, pero naturalmente, no la totalidad de la cultura nacional. En un principio, por tanto, el estudio del teatro fue una práctica social anclada en la cultura de las clases medias urbanas y se limitó a estudiar el teatro de las clases medias como una forma de llevar adelante un proyecto de construcción nacional y de modernización mediante la educación y la exposición del público - la ciudadanía - a la alta cultura (como si fuera innecesario que los distintos sectores sociales se familiarizaran con la cultura y las expresiones de los otros sectores).
Llegado a este punto quizás convenga regresar al título de este ensayo. En efecto, este tipo de teatro de clase media constituyó, en gran medida, la base de la construcción académica del "teatro nacional" así como del "teatro latinoamericano" en tanto agregado de muchos teatros nacionales. La reconfiguración tanto real como conceptual de los sistemas teatrales nacionales nos desafía, sin embargo, a una reformulación de lo que entendemos por el teatro latinoamericano.

II . La práctica del teatro

A fines del siglo XIX ya era evidente que la realidad desbordaba el proyecto de modernización, y aun cuando los estudiosos del teatro hubiesen querido limitarse a un solo tipo de teatro, ya era posible distinguir al menos tres grandes vetas o corrientes de "práctica teatral" conformando un sistema teatral tradicional. Por un lado estaban las teatralizaciones con ambiciones primariamente artísticas, culturalistas (de "formación" cultural) y "modernas," inspiradas y a tono con las corrientes y las vanguardias europeas, y que podríamos llamar el teatro moderno, de vanguardia o el teatro "culto," más o menos europeizante o nacionalista, más o menos tradicional o innovador y experimental.
Por otro, ya se había organizado todo un espacio de teatro comercial con fines artísticos y culturales sí, pero también como forma de ganarse la vida y que debía necesariamente funcionar como negocio.23 Dada su naturaleza al menos parcialmente comercial era un tipo de teatro que, inevitablemente, debía hacer una serie de concesiones a diversos datos de la realidad, entre otros: la necesidad de un público masivo, la necesidad de conectar con los temas, los intereses, los códigos y los gustos populares, la necesidad de explorar otros espacios, géneros y formas de representación.
Eventualmente, la necesidad de vivir del teatro derivó, en algunos casos, en un interés por ganar dinero haciendo teatro, que ya no era lo mismo, cediendo todavía más terreno a fórmulas de éxito seguro y propuestas más simplistas, livianas, populistas o conservadoras. Al margen del teatro moderno y el teatro comercial (tanto de corte "nacional" como "universal") siempre existieron además otros tipos de práctica teatral en la forma de tradiciones dramáticas populares entre las que podemos mencionar, a manera de ejemplo, rituales y ceremonias sociales, religiosas y políticas, fiestas y danzas, juegos y deportes de diversa índole, representaciones de carnaval, concursos y competencias.
Considerando la existencia de estos tres tipos de espacios y modalidades de práctica teatral podríamos entonces pensar el teatro del siglo XIX y de buena parte del siglo XX como un sistema teatral antiguo constituído por la corriente de las tradiciones dramáticas populares, la veta del teatro moderno y el ámbito del teatro comercial, así como sus variadas interacciones, mixturas y síntesis.

                                                      Sistema teatral antiguo

                                                      TM < > TC < > TDP

                                  Teatro moderno Teatro comercial Tradiciones populares

No obstante lo anterior, el estudio del teatro latinoamericano del siglo XIX y XX solía, y todavía suele, atender y reducirse a estudiar, si no exclusivamente principalmente, las obras de teatro moderno y sus manifestaciones más recientes.

III . Una nueva síntesis: U “E1 nuevo teatro popular"

A partir de un reconocimiento e intento de síntesis de esas tres vetas históricas existentes en los sistemas teatrales nacionales es que cobró impulso, sobre todo de la década de 1960 en adelante, el llamado nuevo teatro (o también llamado nuevo teatro popular) de allí en más la clase de teatro privilegiado por los estudios del teatro.24 Había muchas razones para que el nuevo teatro llamara la atención e interesara a los estudiosos y profesores de teatro. Por una parte, el nuevo teatro parecía haber sido capaz de haber producido mm síntesis original del teatro en América Latina, y por consiguiente, de representar una contribución original a la historia del teatro.
El nuevo teatro intentaba además ser popular siguiendo el ejemplo y utilizando recursos tomados de las tradiciones dramáticas nacionalespopulares más arraigadas y del teatro comercial (indisolublemente ligado a lo popular), sin por ello desatender la búsqueda y la experimentación formal, ya sea bajo la influencia de las vanguardias europeas o en respuesta a ellas, siendo este aspecto el más predominante. El nuevo teatro también representaba el estadio superior de las formas de teatro experimental modernas. (Tanto lo popular como lo comercial eran validados sólo en la medida en que fueran tomados como materias primas a ser reelaboradas estetizadas y embellecidas, en suma, elevadas al nivel del verdadero arte, por los creadores y las formas teatrales aceptadas dentro del ambiente del teatro).
Además de nutrirse de las tres vetas teatrales apuntadas, el nuevo teatro popular también buscó jugar un rol protagónico en la formación de una cultura política, en la concientización y movilización social, en el marco
de un sinnúmero de hechos y procesos históricos y políticos que pautaban la vida en la región: golpes y dictaduras, revoluciones, guerras, aventuras imperialistas. En tal sentido el nuevo teatro, lo mismo que el teatro moderno del siglo XIX, también ponía el acento en la función culturalista y pedagógica del teatro (aun si inseparable de la naturaleza estética25 del arte) ya sea en un sentido nacionalista o de crítica política, cultural y social.
Pese al reconocimiento, y la reverencia, del nuevo teatro hacia el teatro comercial y las tradiciones dramáticas populares, y de la revalorización de las formas, temas, contenidos y perspectivas populares que el nuevo teatro ayudaba a rescatar, representar y legitimar, el nuevo teatro, sin embargo, seguía muy bien asentado y seguro dentro de los espacios culturales de las clases medias (unas clase medias, eso sí, más intelectuales, más críticas, más sensibles social y políticamente, más comprometidas con uma transformación social), y de las clases medias provenía la mayor parte de sus participantes tanto arriba como abajo del escenario. Y esta es posiblemente otra razón más a destacar que explica el lugar de privilegio que el nuevo teatro popular pasó a ocupar dentro de los estudios de teatro de América Latina tratando de desplazar a un segundo lugar tanto las formas de teatro nacional moderno más tradicionales como las formas de teatro vanguardistas más desarraigadas y elitistas.
Por último, el papel que jugó el nuevo teatro, el teatro casi en su totalidad,26 en la lucha contra las dictaduras militares (en el caso del Cono Sur, al menos) devolvió un renovado protagonismo y valor al teatro de clase media como espacio e institución cultural, aun cuando las dictaduras ya habían logrado echar las bases para un nuevo modelo de organización social que, a la larga, terminaría de arruinar a la clase media y a la cultura de la clase media en América Latina.

IV. Crisis de la cultura de la clase media y su impacto sobre el teatro

A poco de terminada la Segunda Guerra Mundial, los fracasos y las limitaciones del desarrollismo capitalista periférico o dependiente echaron por tierra los planes de modernización anclados en la expansión de las clases medias. Lo que sobrevino, en cambio, fueron sociedades cada vez más empobrecidas, excluyentes y polarizadas, con una clase media asfixiada de un lado por las élites tradicionales, y de otro, por una creciente masa de asalariados empobrecidos y sectores marginados que empezaban a golpear a sus puertas. El empobrecimiento de las ciudades y sobre todo de la niñez y la juventud, el colapso de las instituciones y servicios del Estado de bienestar, la brutal caída de los salarios, la explosión del desempleo y precarización del empleo, la informalidad y la criminalidad, la desintegración social y cultural, todo apuntaba a indicar el nacimiento de nuevos modelos de organización social capitalista, que parecen no necesitar en absoluto de las clases medias ni de los parámetros culturales antes asociados al Progreso o a la Civilización.
Esta nueva realidad social no significó un desplazamiento automático de la centralidad y el prestigio de la cultura de la clase media en la sociedad en su conjunto. Desde el punto de vista cultural, como decíamos, tanto las clases medias como las clases altas no dejaron de ser relativamente atractivas y modélicas para amplios sectores de las clases populares, a veces hasta como reacción y resistencia frente a las propuestas ideológicas, artísticas y estéticas del mercado o de las metrópolis imperialistas. Incluso, como ya se ha señalado, en la circunstancia de los golpes y dictaduras militares, el teatro abrió un espacio de encuentro, de denuncia y de reorganización social, estética y simbólico-discursiva, volviendo a jugar un papel protagónico. De todos modos, el dato de la realidad dictaba su propio curso, incluso en el campo de la cultura. En efecto, esta "nueva realidad" social, económica y política empezó a hacer su trabajo de hormiga abriendo grietas, y más que grietas, abriendo nuevos espacios sociales, discursivos y estéticos enteros, al margen, por debajo o por fuera de la cultura y los discursos de clase media.
Por lo pronto, una vez pasada la luna de miel de los procesos de "redemocratización" de los 80 y cuando ya se empezaron a sentir de lleno los efectos de las reformas estructurales o de fondo llevadas a cabo por las
dictaduras y los gobiernos neoliberales que les sucedieron, resultó claro que las sociedades latinoamericanas ya no volverían a ser las mismas. Las crisis financieras que se sucedieron en las principales economías latinoamericanas (México, Brasil, Argentina y Venezuela) entre 1998 y 2003, arrastrando a su
vez al resto de los países de la región (Ecuador, Uruguay, Paraguay, Perú, Bolivia) terminaron de liquidar a las culturas de clase media que, al menos en el nivel imaginario, anclaban los proyectos desarrollistas de modernización.
Como resultado, muchas de las prácticas e instituciones culturales de las clase media, tales como la lectura de libros, revistas y periódicos, los paseos y las salidas al cine y al teatro, la casita propia, el autito y el colegio privado para los chicos, los viajes, el veraneo y el turismo, el consumo de discos y hasta la TV por cable se vieron seriamente disminuidas por la crisis econômica y sus efectos en la sociedad. En lo que concierne a la práctica del teatro moderno (culto, experimental), comercial o en su versión sintética de nuevo teatro, hubo uma sensible reducción y un creciente confinamiento, o "enguetamiento,"27 de este espacio socio-cultural, es decir, un proceso de signo contrario a la expansión de mediados de siglo. La crisis social fue apartando a la gente del espacio del teatro, ya porque no tuvieron el dinero para asistir al teatro, ya porque la idea de ir al teatro, de ir al Centro, donde están las salas de teatro, se volvió cada vez más extravagante, o ya porque a raíz de largos procesos de transformación cultural fue cambiando el gusto y las preferencias populares que ahora parecen inclinarse mucho más hacia el video, las computadoras, los juegos de video, ir a pasear al shopping, ir al estadio, escuchar música por la radio y ver la televisión. Se produjo una desconexión, además, entre el teatro y la política, uno de los aspectos que estaban en la base del nuevo teatro en los 60s y 70s y del breve renacimiento del teatro en el proceso antidictatorial y los años subsiguientes.
La crisis económica, por último, no sólo alejó al público (sin plata para ir al teatro) e incidió en la venta de las entradas; también ocasionó la evaporación de los fondos públicos de apoyo a la actividad teatral, hizo cada vez más cuesta arriba la formación y la dedicación de los actores, afectados por estudios muy costosos, el desempleo y el pluri-empleo, la emigración, y determinó que muchas compañías de teatro tuvieran que dejar de funcionar o hacerlo muy pobremente, con escasos recursos y peores perspectivas.
Si hacia mediados de siglo el teatro de clase media había conseguido convertirse en un espacio de diálogo social, o al menos de intento de representación simbólico-discursiva de una totalidad social, a fines del siglo
XX el teatro dejó de ser ambas cosas. Se volvió inaccesible a demasiados sectores como espacio de reunión y de diálogo y se volvió demasiado impermeable o incapaz (formalmente inadecuado, desubicado) para captar y representar los discursos que existen en la totalidad social. De ahí en más es preciso poner en duda la capacidad sintética, y metafórica, del teatro para representar al "teatro de tal o cual país" o tal o cual tema o "problemática nacional."

V. Evolución en el estudio del teatro

Paralelamente a la crisis en la práctica del teatro como resultado de las transformaciones de la cultura de la clase media, se produce asimismo una crisis en el propio estudio del teatro. Una parte de esta crisis en el estudio del teatro se debió a la propia pérdida de relevancia del teatro moderno o comercial como locus y práctica social y simbólica desde el cual se pueden captar la sociedad, sus procesos, sus debates, sus problemas, en otras palabras, el teatro como lugar desde donde captar las claves de la sociedad y la cultura contemporánea, los núcleos y los ejes de la crisis social, los actores sociales, sensibilidades, subjetividades y proyectos emergentes o en pugna. Otra expresión de dicha crisis fue el olvido de los objetivos y los marcos de crítica históricos, que tenían menos que ver con los inventarios de obras, autores y estrenos, o los comentarios acerca de las puestas en escena, la dirección o las actuaciones en sí mismas y más con una discusión de las propuestas teatrales (sus aspectos escénicos, dramáticos, estéticos) en relación al tema de la construcción de la nación, la crítica social o la formación de distintos tipos de nuevas sensibilidades y subjetividades sociales en el marco de los diferentes proyectos de "redefinición de la cultura nacional."
Por el contrario, buena parte de los estudios del teatro se realizan sobre la base de enfoques que enfatizan la especificidad y la autonomía del discurso teatral, tanto de la práctica del teatro como del propio discurso crítico. Esto coincide con la creciente transformación del estudio del teatro en otro "discurso de especialistas" y su correspondiente institucionalización, y corporativización, en la forma de cursos, conferencias, muestras, publicaciones, construcciones de archivos académicos, en suma, un mundo cada vez más auto-referencial, y de alguna manera, también más desconectado de las sociedades y las circunstancias "más amplias" en las que se insertan y en lãs que intervienen las obras.

VI. La nueva espectacularidad urbana

La pérdida de centralidad y relevancia de la práctica teatral, siempre en téminos relativos a las culturas nacionales particulares, lo mismo que del aporte del estudio del teatro se vio acompañada por la importancia cada vez más creciente, sobre todo en los últimos 20 años, de los medios masivos de comunicación constituidos en un nuevo espectáculo o espacio de encuentro y de diálogo, y en definitiva, constituido en otra síntesis teatral de las distintas culturas que atraviesan y coexisten en la cultura nacional.28 Me refiero aquí
a los teleteatros (herederos de los radioteatros), las comedias, los programas de humor (herederos del circo y las carpas), los video-clips, los documentales, los noticieros, las transmisiones de espectáculos locales, los programas de juegos y sorteos (herederos de las kermeses y otras tradiciones populares muy antiguas y arraigadas), los reality shows y también, por supuesto, las películas que, pantalla de televisión o shopping centers mediante, constituyen el nuevo horizonte espectacular (es decir, una dimensión pivotal de la nueva
cotidianeidad o principio de realidad) de la cultura de masas. Por lo pronto, una serie de producciones televisivas y cinematográficas nacionales recientes son prueba de la capacidad de convocatoria lo mismo que de representar y problematizar la realidad social por parte de estos otros espacios y medios.29
Los medios masivos de comunicación, sin embargo, no agotan este nuevo tipo de espectacularidad, la cual también está conformada por un conjunto de nuevos espacios y espectáculos urbanos. Por nuevos espectáculos urbanos nos referimos a una vivencia dramática de la ciudad, al surgimiento de nuevos espacios {shoppings, ferias, parques, placitas), a la manipulación cultural del espacio público, sus edificios y sus monumentos (ligada a las tácticas de diversos tipos de movimientos culturales, políticos y sociales), la organización de distintos eventos y espectáculos que utilizan la ciudad como escenario o marco (festividades, celebraciones con juegos artificiales, desfiles), el propio papel que pasan a jugar los espectáculos deportivos, principalmente el fútbol, pero también las maratones, las carreras automovilísticas.
Al igual que antes el nuevo teatro popular, los medios de comunicación masiva también se van a nutrir de las tres corrientes que subyacen a la historia de la práctica del teatro en América Latina, esto es, de las prácticas teatrales tradicionales, el teatro moderno y experimental (de corte europeo o norteamericano) y las distintas experiencias de teatro comercial. A diferencia del nuevo teatro, en el que predomina la veta del teatro moderno, en el caso de los medios masivos, sin embargo, predomina la dimensión comercial, es decir, la subordinación del espectáculo a un imperativo económico primario y superior, y a la necesidad de ampliar la ciudadanía y el público, aunque ahora entendidos como el público "espectador" y "consumidor."
El mayor peso relativo de los medios masivos y los nuevos espectáculos urbanos contribuyeron a su vez a generar una fragmentación radical y una polarización espacial y cultural del sistema urbano y teatral. Em el discurso coloquial popular esta polarización adopta la forma de una lucha entre "el viejo Centro" (eje geográfico y simbólico de un tipo de ciudad y de sociedad: urbana, integrada, de bienestar, de clase media) y los shoppings centers, constituidos en nodos y ejes de un nuevo tipo de ciudad y sociedad: "globalizada" (léase, argentinizada o norteamericanizada), de consumo, suburbanizada, desintegrada.
En efecto, en un polo se hallan los espacios culturales tradicionales de las clases medias: el Centro de la ciudad, los paseos, las galerías y las grandes casas comerciales tradicionales, los principales edificios públicos, plazas y monumentos nacionales, las bibliotecas, las salas del Centro, los cafés, los espacios tradicionales de "la cultura," del arte culto, de la intelectualidad (de la bohemia intelectual) de las vanguardias, el teatro "comprometido," o compañías de teatro históricamente vinculadas a movimentos y partidos políticos progresistas. En el polo opuesto se hallan, por una parte, los espacios sólo aparentemente "desterritorializados" de los medios masivos de comunicación, acentuando la importancia de la vida hacia adentro de la casa y la conexión con los centros que hegemonizan la cultura global (Miami, Los Angeles, Nueva York), y por otra parte, los nuevos centros y espacios urbanos {shopping centers, mega-supermercados, autopistas, grandes espectáculos deportivos, cadenas de comercios, suburbios de clase media, barrios privados cerrados)30
Este modelo o planteamiento bipolar, sin embargo, no agota los espacios de actividad cultural y teatral puesto que existen además toda outra serie de espacios, ámbitos y situaciones en los que se dan otros tipos y grados de intervención teatral, otros tipos de diálogos y de síntesis de las diversas vetas y corrientes que históricamente alimentan la práctica del teatro en el nivel local, así como diversos tipos y grados de intervención social y política a través del teatro. En tal sentido, aún reconociendo la tensión real que se ha establecido entre los espacios teatrales tradicionales y los nuevos es preciso abandonar y superar este modelo bipolar, principalmente por lo que tal modelo no deja ver ni abordar.
En efecto, la superación de dicho modelo supone la necesidad de reorientar y reformular el estudio del teatro hacia nuevas formas, prácticas y síntesis que tienen lugar en ámbitos y espacios socioculturales que se desarrollan tanto fuera del teatro moderno, experimental y el nuevo teatro (que ha ocupado a la crítica teatral) como fuera del espacio de los médios masivos o los shoppings y otros espacios similares en tanto loci o escenarios de una nueva espectacularidad (la cual ha ocupado a la corriente "dominante" de los estudios culturales31).
Por estas otras formas, ámbitos y direcciones me refiero, por ejemplo, a los espacios e instituciones sociales y culturales de las clases populares, a los espacios no letrados, a la puesta en escena y teatralización del activismo social y político, a la teatralidad social en la vida cotidana, a la teatralidad urbana más allá de los shoppings.

VII - Espacios y teatralidad populares y reconfiguration del sistema teatral nacional

Como planteáramos al comienzo, por fuera, o al menos, a cierta distancia, del teatro moderno o vanguardista y del teatro comercial siempre existió un conjunto de tradiciones dramáticas populares constitutivas del antiguo sistema teatral. La crisis del desarrollismo y de la cultura de la clase media que se empieza a procesar en la década del 60 y 70 y que se acentua y consolida como resultado de las reformas estructurales neoliberales de los 80 y 90 no vino más que a acentuar y expander todo este "otro" território teatral e incluso a dar lugar a nuevas formas de teatralidad popular.
Entre estas nuevas formas de teatralidad popular cabe señalar, por ejemplo, las nuevas formas de movilización social y política que utilizan recursos y estrategias teatrales,32 o un conjunto de experiencias de teatro con la gente, como parte de las actividades de organizaciones barriales, estudiantiles, sindicales, de jubilados, de personas en la cárcel.33 Igualmente indicativas son las distintas formas de intervención en el espacio urbano, como es el caso de las distintas expresiones de teatro callejero, las estatuas vivientes, los mimos y los performers en plazas, peatonales y veredas, lãs carpas,34 los cantantes itinerantes, una numerosa galería de personajes y actuaciones en los ómnibus, los malabaristas, tragasables, clowns y zancos en las esquinas y en las ferias, la ciudad convertida en un circo, de a ratos patético y bastante fellinesco, por cierto, así como también formas actualizadas (modernizadas, estilizadas, fusionadas) de las antiguas tradiciones dramáticas populares.35 En todos estos casos estamos no sólo en un territorio teatral muy ajeno al de los teatros del Centro36 sino inclusive frente a formas y propuestas teatrales (estéticas, ideológicas) radicalmente diferentes.
Todas estas nuevas formas de teatralidad popular, algunas de ellas, no nos olvidamos, casi una forma de mendicidad disfrazada, no sólo se han expandido y alcanzado un alto grado de visibilidad social, sino que también ha crecido su importancia y su centralidad social y simbólica, y también su influencia dentro del sistema teatral a juzgar por el interés que suscitan no sólo entre el público sino en los otros ámbitos del teatro en el nivel local. Más significativo todavía, algunas formas dramáticas tradicionales modernizadas
(caso del teatro del carnaval, o distintas experiencias de teatro estudiantil o barrial) han conseguido generar una nueva síntesis teatral que tiene lugar dentro de los espacios de la cultura popular aun cuando utilicen y hagan suyas las diversas vetas del sistema teatral (el teatro moderno o experimental, los emprendimientos de índole comercial, la cultura de masas y la nueva espectacularidad urbana, la teatralidad social, deportiva, religiosa o política).
En efecto, llegado a este punto, es preciso subrayar los câmbios operados en el sistema teatral y proponer un nuevo modelo (o hipótesis) de sistema teatral nacional conformado por tres nuevas esferas o fuentes principales: Primero, la corriente del teatro moderno o culto, el "nuevo teatro popular," emprendimientos teatrales comerciales, performances y otros experimentos vanguardistas, y en fin, todo el conjunto de las teatralidades y teatralizaciones que se llevan a cabo dentro de la cultura y los espacios de las clases medias. Segundo, la corriente de la cultura de masas (como outro espacio de teatralizaciones) y que tiene a los medios masivos y a los shoppings como sus marcos y escenarios principales. Tercero, los diversos tipos de teatralizaciones que tienen lugar en el marco de los espacios sociales y culturales de las clases populares crecientemente empobrecidas, excluidas y marginadas (a la que se han sumado y que ahora también integran amplios sectores de las clases medias), en suma, las teatralizaciones populares, tanto las tradicionales (actualizadas) como las nuevas.



                                                     A. Sistema teatral antiguo

                                                      TM < > TC < > TDP

                                          Teatro moderno Teatro comercial Tradiciones populares

                                                B. Sistema teatral contemporáneo

                                                    TCM < > CM < > TP

                                         Teatro clases medias Cultura de masas Teatralizaciones populares

Como hemos sugerido, historicamente preocupado principalmente por el teatro de las clases medias, y más recientemente interesado en los medios de masivos y la cultura, de masas, es preciso que los estudios del teatro (la crítica teatral, los investigadores, los docentes) visualicen y confronten el conjunto del sistema teatral, que tomen en cuenta la evolución así como el estado actual de nuestros sistemas teatrales nacionales, reconozcan los câmbios estructurales de nuestras sociedades y culturas (su impacto sobre el teatro y su estudio), y en consecuencia, la mayor centralidad e importância de las teatralizaciones que se llevan a cabo en otros espacios, por fuera de los espacios tradicionales del teatro y por obra de otros grupos de actores
 sociales y culturales.
Tal estudio puede, por ejemplo, abordar las características de cada uno de estos campos teatrales en términos de acceso, de relación con el espectador, de sus estrategias y recursos discursivos, dramáticos y estéticos, de su capacidad de representación social (de la sociedad como conjunto, de los problemas sociales). A efectos de evitar reduccionismos, esencialismos e idealizaciones, segundo, es preciso pensar cada uno de estos campos teatrales como espacios conflictivos y en tensión, dentro del cual tienen lugar intervenciones y propuestas estéticas y discursivas muy variadas y, de hecho, hasta contradictorias y contrapuestas entre sí. Tercero, también es preciso captar el diálogo y la interacción no sólo entre teatro y sociedad sino también entre los diferentes espacios y tradiciones constitutivas del sistema teatral nacional. Cuarto, es igualmente necesario interrogar y no dejar sin considerar las zonas de paso, movedizas y fluctuantes que se dan entre las distintas formas de espectacularidad y teatralidad y que también son parte del sistema teatral contemporáneo.
En efecto, uno de los fenómenos característicos del teatro actual es, precisamente, el del movimiento desde las salas del Centro y los espacios cultos de las clases medias hacia los espacios culturales populares o hacia la cultura de masas o viceversa. En los últimos años distintas experiências teatrales37 documentan este desplazamiento e "ir y venir" entre distintos tipos de espacios, propuestas y formas de hacer teatro que no buscan ni se limitan a "llevar la alta cultura a los barrios"38 ni "traer la cultura de los barrios a las salas del Centro," y que expresan una maduración del sistema teatral nacional en el sentido de trascender el aislamiento, reinsertarse en el espacio social y, más importante todavía, de poder producir nuevas teatralidades y espacios de teatro.
Para concluir, nada de lo anterior es realmente visible (pasible de ser investigado, enseñado y discutido) mientras el estudio del teatro se siga reduciendo a abordar las obras y los autores que representan determinadas compañías de teatro en las salas del Centro o las muestras internacionales, y que suelen ser de las únicas que se ocupan los críticos, investigadores y docentes de teatro. Mientras sigamos pensando el panorama teatral y los estudios del teatro latinoamericano sobre la base de sistemas teatrales nacionales "mutilados" o esquemas dicotómicos simples {teatro oficial vs. teatro independiente, teatro moderno vs. teatro comercial, teatro culto vs. teatro popular, nuevo teatro vs. medios masivos) seguiremos sin poder
visualizar y abordar el sistema teatral como un conjunto bastante más fluido, sorprendente y rico que lo que sugieren tales conceptualizaciones.
El propósito de este planteo, por lo tanto, no es que dejemos de lado las obras modernas o clásicas, las principales compañías y los grandes autores (que naturalmente tienen mucho para decir, mucho para aportar y mucho valor) sino que no se pierdan de vista otras partes igualmente importantes (por los mismos motivos, o quizás por otros) de ese conjunto.

                                                                                                                                       Trinity College

Notas:

1 Ensayo basado en la ponencia presentada en el Centro Cultural de la Pontifícia Universidad Católica (Lima, Perú) el 8 de julio de 2002, en el marco del Tercer Encuentro Anual del Instituto Hemisférico de Performance y Política organizado por la Universidad de Nueva York.


2 Tengo en mente el suplemento cultural de El Pais de Montevideo {El Pais Cultural),o las páginas culturales del semanario Brecha de Montevideo, por ejemplo.


3 Por ejemplo, las publicaciones del Grupo de Estudios de Teatro Argentino e


Iberoamericano (GETEA) dirigida por Osvaldo Pellettieri (Universidad de Buenos Aires) y Eduardo Rovner (Centro de Investigación de Teatro Iberoamericano), o las revistas Gestos publicada por la Universidad de California en Irvine, dirigida por Juan Villegas, o Latin American Theatre Review publicada por la Universidad de Kansas en Lawrence, dirigida por George Woodyard.


4 Recurro aquí, a modo de emblema, el reciente 'resumen' de la actividad teatral uruguaya de Alejandro Michelena (Michelena 2003), o los regulares repasos y actualizaciones de "la escena teatral uruguaya" de Roger Mirza y Walter Rela (Mirza 1992a, 1992b, 1995, 1998a, 1998b; Rela 1994).


5 Pienso, por ejemplo, en el reciente Festival de Santa Cruz de la Sierra en Bolívia (mayo de 2003), en la propia muestra del Encuentro de Lima (julio 2002), en los puntuales Festivales Iberoamericanos de Teatro de Cádiz, entre muchos otros.


6 Utilizo el término "sistema teatral nacional" siguiendo en este sentido la terminologia propuesta por Roger Mirza. Ver Mirza (1992), (1995) y (1998).


7 Me refiero a su trabajo sobre el teatro clandestino en las cárceles de presos políticos en Argentina. Ver Martin (2003).


8 Pienso en su trabajo acerca de las experiencias teatrales como forma de terapia para superar problemas sicológicos y sociales ocasionados por la dictadura en Chile. Ver Torres Godoy (2003).


9 Tengo en mente su análisis de la teatralidad de distintas fiestas populares en México. Ver Azor (2002).


10 Me refiero a sus trabajos sobre las experiencias de murga y teatro vecinal organizadas por Adhemar Bianchi en el complejo Catalinas Sur de Buenos Aires. Ver Pellarolo (2001) y Proaño Gómez (2001).


11 Quiero señalar aquí su investigación sobre los rituales de (re)construcción de uma memoria histórica en el Chile actual. Ver del Campo (1998) y (2001).


12 Pienso en su trabajo sobre los mineros bolivianos que se crucificaban como forma de protesta. Ver Sanjinés (1992) y (1996).


13 Hernán Vidal ha sido uno de los primeros en proponer e insistir que la crítica latinoamericana atendiera y abordara la teatralidad social y política como parte de la investigación y la práctica docente, y que él ha llevado a la práctica en numerosas publicaciones. Por um planteo teórico en tal sentido ver Vidal (1992) y (1991).


14 Me refiero a su libro Disappearing Acts (1997), más que a Theater of Crisis (1991) o Negotiating Performance (1994), en la medida que en este libro se abordan un vasto conjunto de teatralizaciones e intervenciones teatrales además de las salas del Centro (Teatro Abierto), lãs grandes obras y los grandes autores, o las experiencias vanguardistas, performances, instalaciones. Ver Taylor (1997).


15 Me refiero, principalmente, a su libro Testimonios de teatro latinoamericano (1991) a diferencia, por ejemplo, de El teatro de Nuestra América (1990) acerca del Nuevo Teatro y los Festivales de Teatro.


16 Tengo en mente sus diversos estudios sobre el teatro popular, el género revisteril, el teatro indígena y otros tipos de teatro en México. Ver Frischmann (1991) y Weiss et al (1993).


17 Sobre algunos ritos y tradiciones teatrales populares en Nicaragua y Cuba ver Martin (1994).


18 Ver Weiss et al (1993).


19 Ver Geirola (2000).


20 Mirza se refiere, aun si un poco al pasar, a ciertos "espacios alternativos" (94-95) y a escuelas y talleres "emergentes" (99) que siguen siendo más bien experimentos vanguardistas del propio teatro moderno o culto. Ver Mirza (1998a).


21 Pellettieri menciona, también bastante al pasar, la existencia de "otro teatro," com nuevos autores, actores y directores, con un temario que cuestionaba al "teatro de la clase media" y que se propone "llegar a sectores desatendidos por el teatro oficial" (Pelletieri cita aqui de "Teatro Abierto 1982-1985" de Perla Zayas de Lima, 2001), así como a su reconocimiento de que la práctica teatral cultural en la Argentina debe ser revisada (66). Ver Pelletieri (2002).


22 En el caso montevideano el "circuito de las salas del Centro" está organizado fundamentalmente en torno a El Galpón, Teatro Circular, Teatro Stella, El Tinglado, La Gaviota, Teatro del Centro, Teatro del Círculo, Teatro del Anglo, Teatro Alianza, Teatro del Notariado, Sala Verdi, Espacio Cervantes, El Tinglado, La Máscara, la Asociación Cristiana de Jóvenes, Teatro AGADU, más algunos otros espacios céntricos nuevos tales como Puertoluna, Pachamama, Afrodita Pub, Teatro del Mercado, Teatro Victoria, los Galpones de la Intendencia, Teatro Abierto o Mincho Bar y algo menos céntricos, como Plaza Mateo o La Commedia. El Teatro Solís (escenario de la Comedia Nacional) está cerrado debido a las obras por reformas. Sobre el
"teatro sobre ruedas" que sale de la peatonal Bacacay (frente al Teatro Solís, en la Ciudad Vieja) me refiriré más adelante.


23 En el caso del Rio de la Plata pensemos, a modo de emblema, en la compañía de teatro popular de los hermanos Podestá.


24 Para una explicación y problematización del "nuevo teatro" latinoamericano o Del "nuevo teatro popular" - ver, por ejemplo, Rizk (1987), Kaiser Lenoir (1989), Weiss (1989), Pianca (1990), De Costa (1992) y Weiss et al (1993).


25 Uso el término no en el sentido restringido de "lo bello" sino en el sentido más clásico, básico y amplio de la relación sensual con el mundo mediante el cuerpo, los sentidos, el intelecto, las emociones, los sentimientos. (Ver Barilli 1989).


26 Me refiero tanto a la Comedia y a las diversas manifestaciones del movimiento de Teatro Independiente (ver, por ejemplo, Mirza [1992a] y [1992b], Santos [1988], Solarich [1991], Puga [2003]) como también al teatro de los tablados del carnaval (Remedi [1992] y [1996]) y hasta algunos programas o espectáculos televisados.


27 Esto ocurre cuando ciertos espacios sociales o culturales dejan de ser atravesados y permeables a otros sectores sociales, estéticas y discursos ("otras realidades"), quedan aislados del resto de la sociedad y tienden al incesto cultural.


28 En esto se apoyan los diversos planteos y estudios de Néstor García Canclini, Jesús Martín Barbero, Renato Ortiz, George Yúdice, Armand Mattelart, Guillermo Sunkel, Hugo Achugar, y otros autores interesados en el consumo cultural, la cultura de masas, los medios masivos, los estudios de la recepción de la cultura de masas (las estrategias de resistencia), los imaginários transnacionales populares, los trabajos de la imaginación, las experiencias de la ciudad y la formación de imaginarios urbanos Ver García Canclini (1995).


29 En el caso uruguayo esto sucede con los filmes en En la puta vida de Beatriz Flores Silva, Corazón de fuego de Diego Arsuaga, 25 Watts de Juan Pablo Rebella y Pablo Stoll y Aparte de Mario Handler, o numerosas producciones del canal de la comuna capitalina TV Ciudad, del recientemente inaugurado TV Libre y hasta de los propios canales tradicionales, acosados por um lado por la oferta norteamericana via cable, y por el otro, por la oferta local de los emprendimienttos televisivos mencionados anteriormente.


30 Ver Remedi (2000).


31 Por corriente dominante me refiero a los estudios del consumo cultural y de recepción de la cultura de masas sin entrar necesariamente en un estudio de la reelaboración cultural local de esos insumos mediante formas de producción y distribución cultural nacionales.


32 Pienso en las diversas movilizaciones liceales y universitarias que recurren a escenografías, instalaciones y breves dramatizaciones, como cuando se envolvió el edificio de la Universidad con un nylon negro en la movilización por el presupuesto universitario, los desnudamientos públicos de protesta (como el organizado por una agrupación feminista en la Plaza Libertad en protesta del maltrato de las mujeres en el régimen talibán, bastante antes de 2001), el simulacro de bombardeo contra civiles realizado en pleno centro por la Escuela de Arte Dramático y la Intendencia Municipal de Montevideo (Fig. 1), o la propuesta de intervención teatral callejera llevada a cabo por el grupo La gotera/Murgajoven como parte de una campana de limpieza urbana.


33 Tal el caso de la experiencia de Horacio Buscaglia con el Club del Teatro en el marco de la huelga general de 1973, o las experiencias de teatro en las cárceles de mayores y de menores (como el caso de los grupos de teatro del CIAF-INAME organizados por Mario Villagrán), pero tamben "la cultura de hacer teatro" en forma amateur que se extendió entre la juventud, y los no tan jóvenes, y que ha dado lugar a una gran cantidad de pequeñas escuelas y talleres organizados en numerosas instituciones y clubes, la experiencia de teatro descentralizado y barrial de Eider Silva en el Teatro Florencio Sánchez de la Villa del Cerro y, en general, los talleres de teatro ligados a los nuevos Centros Comunales Zonales de Montevideo organizados por la comuna a partir de 1989.


34 Me refiero a los varios años de La Carpa en las inmediaciones del estadio Centenario, en la placita de Tuyutí y Secco Illa, detrás del Liceo Dámaso Antonio Larrañaga, y más recientemente, la carpa de Nancy Guguich en la Plaza Mateo del Parque Rodó, diversas experiências que fueron parte de la Movida Joven en 2002, entre otras.


35 Quiero señalar, en este sentido, las nuevas propuestas de representación de carnaval resultado de una incesante renovación y verdadero canibalismo de los distintos géneros Del carnaval (los parodistas, los humoristas, las comparsas, los shows de revistas,), pero en particular de las murgas, de la mano de La soberana y Araca en los 70, de la Falta y la BCG en los 80, de Contrafarsa en los 90, de Diablos Verdes este año (2003).


36 Nuevamente recurriendo al caso uruguayo, a pesar de sus diferencias, dentro Del "circuito del Centro" podemos agrupar a la Comedia Nacional y la Escuela Municipal de Arte Dramático y sus interpretaciones del teatro clásico, moderno y "universal," a los distintos exponentes del movimiento de teatro independiente como El Galpón o el Teatro Circular, autores como Jacobo Langsner, Carlos Manuel Varela, Alberto Paredes, Víctor Manuel Leites, Ana Magnabosco o Alvaro Ahunchaín, obras de "nuevo teatro" como El herrero y la muerte de Jorge Curi y Mercedes Rein, o El regreso del gran Tuleque de Mauricio Rosencof (que rescatan y se apropian de motivos y discursos populares), o hasta propuestas más lights y comerciales como los unipersonales de Petru Valenski y otras obras de Italia Fausta, por mencionar una de las compañías más taquilleras.


37 Tal el caso, por ejemplo, de Barro negro, una obra de Gabriel Núñez realizada por el Teatro sobre Ruedas que se desarrolla en un ómnibus que recorre la ciudad y al que suben y del que bajan personajes en las distintas paradas, o la experiencia que se realizó en la Estación Colón pero a la que tanto espectadores como actores asisten juntos mediante un viaje en tren, o de "lãs migraciones" de actores formados dentro del teatro moderno o comercial que "se han pasado" a los espacios del teatro del carnaval, como es el caso de Los Buby's de Enrique Vidal o la Antimurga BCG de Jorge Esmóris por mencionar dos casos emblemáticos, sin olvidarnos del propio teatro del carnaval (por definición un tipo de teatro dialógico, ubicuo e itinerante) ni del diálogo enriquecedor que hoy tiene lugar entre el nuevo teatro, el teatro de carnaval y lãs organizaciones sociales. Otros ejemplos indicativos de este fenómeno del desplazamiento entre espacios y teatralidades son las actuaciones en los ómnibus que resultan tanto de la vocación como de la necesidad — pienso, por ejemplo, en las incursiones en este sentido del actor y director teatral Fernando Toja (Teatro Circular), por nombrar un caso célebre, entre muchos otros casos anónimos, — así como las recientes experiencias de actuaciones de conjuntos de carnaval, o de género carnavalesco, en el ómnibus. Por lo demás, la radiodifusión y televisación del carnaval (como antes el radioteatro), la parodia de programa deportivo Malo pero nuestro de Jorge Esmóris en TV Ciudad (quien del teatro pasó al carnaval y de allí a la televisión y a la radio), o la reciente obra Murga madre (2002) representada en el Teatro Alianza (a partir de textos de Pablo Routin, música de Edú Lombardo, dirección escénica de Fernando Toja y producción artística de Luis Restuccia) son algunos ejemplos más de confluencias, desplazamientos y "corrimientos" ida y vuelta entre el espacio del teatro culto o moderno, los espacios teatrales populares y el espacio de los medios masivos de comunicación, así como de producción de nuevos espacios y síntesis.


38 Hago eco en este sentido de las manifestaciones del director Adhemar Bianchi. Ver Pellarolo y Proaño Gómez (2001: 121).






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